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A sua vida pode ser um tédio, e tudo bem

Não passa um dia sem que eu escute alguém dizendo sobre o quanto a nossa geração sofre com o tédio. Mas isso é sério? Porque uma coisa é estar entediado por causa de um trabalho repetitivo ou por passar três horas parado no trânsito a cada dia, mas ser entediado com a própria existência é certamente o que nós não somos.

Quando eu olho para mim mesma, o meu primeiro instinto é dizer que eu não sou e nem levo uma vida entediada. Em um dia normal, eu falo com uma ou outra pessoa interessante. Eu costumo beber um bom café e compartilho de uma boa conversa com meus companheiros de quarto. E por mais que essa rotina pareça tediosa, quando eu deito a minha cabeça no travesseiro para dormir, eu apenas me sinto satisfeita.

Eu sei. Provavelmente, hoje mesmo você tenha visto a linha do tempo de um amigo no Facebook, e lá estava ele fazendo algo incrível, bem diferente de uma rotina como a minha, ou mesmo a sua. Obrigada, internet! E logo depois você provavelmente pensou: “Uau. Eu também deveria estar na Nova Zelândia saltando nesse bungee jumping”.

Então você percebe que, como a maioria das pessoas, o máximo de aventura que você faz em qualquer dia e mesmo nos finais de semana é ir para uma caminhada. E, em um piscar de olhos, você sente que as suas caminhadas são chatas e te deixam deprimido.

É então que você começa a acreditar que talvez a vida aventureira não seja para você, e você desiste totalmente de qualquer tipo de aventura, incluindo as suas caminhadas. Então, você decide que vai passar todos os próximos finais de semana dentro de casa, apenas relaxando e assistindo Netflix.

Agora, antes de se deixar levar por estes sentimentos, pense sobre esta questão:

Qual é o problema com o tédio?

ABSOLUTAMENTE NENHUM. Não há nada de mal em sentir um certo nível de tédio e passar alguns finais de semana na frente da televisão. É a sua vida. Você deve fazer o que o faz feliz. Honestamente, se eu pudesse recomendar qualquer alternativa, seria essa: desligue a TV e abra aquele livro que você abandonou por algum tempo.

Eu mesma tenho o livro Think Fast and Slow na cabeceira da minha cama neste momento, o que estou tentando terminar de ler a alguns meses. Eu insisto nesta leitura, porque acho mesmo que ela pode mudar a minha maneira de pensar, mas lendo qualquer trecho com mais de três páginas, eu começo a sentir os fios invisíveis sob meus olhos puxando minha cabeça para longe do texto.

Claro que a culpa é do meu telefone celular, e não minha.

Realmente, os nossos intervalos de atenção se tornaram mais curtos depois que passamos a viver com os nossos dispositivos eletrônicos em nossas mãos. Mas não é sobre isso que eu estou falando aqui.

O que eu estou tentando dizer é que a nossa geração parece ter mais coisas a fazer do que qualquer geração passada. E, em vez de termos tempo para nos entediar, estamos desenvolvendo um novo tipo de tédio. Um tédio nascido de um excesso de opções, ao invés de uma ausência.

E tem outra culpada nessa história toda:

A imagem inflada da aventura

Eu vivi na Índia por seis meses. Você pode dizer “Uau, isso deve ser impressionante!”. Mas, talvez, eu tenha que te dizer algo sobre viver em um país exótico como este. Lá, o trânsito é uma loucura, as pessoas dirigem como maníacos e não há sinalização em qualquer lugar (e você ainda sente tédio por passar três horas no trânsito no Brasil). Em vez de ter esse caos em mente, quando eu menciono Índia, tudo o que você imagina é uma foto bacana de alguém fazendo ioga na frente do Taj Mahal. No entanto, essa sua percepção é tão mascarada quanto o filtro do Instagram usado para aquela foto.

Eu acho que estamos todos aprisionados por esta bolha de positividade, onde todos estão fazendo algo incrível para fugir do tédio, mas ninguém pára e diz: “Ei, eu quero dormir às 8h da noite, logo depois de tomar um banho relaxante depois do trabalho”. Porque isso é coisa para perdedores. Pelo menos, é isso que ouvimos das outras pessoas que preferem trocar boas horas de sono para passar mais tempo em seus computadores escrevendo sobre o quão erradas são as nossas escolhas e desejando que elas estivessem fazendo o mesmo.

Claramente, opiniões assim são guiadas por interesses financeiros, principalmente na forma de anunciantes, que certamente querem que você acredite que passar mais horas dormindo ou “perdendo tempo” lendo um livro de ficção faz de você uma pessoa menos produtiva. Estas são as mesmas pessoas que fizeram jogos de futebol quase insuportáveis ​​de assistir, graças a tantos intervalos comerciais. Mas elas estão erradas.

A verdade é que é muito legal ir para a cama às 8h da noite. Eu faço isso sempre que eu posso. Ou, ler livros no fim de semana. Melhor ainda, todos os dias. Ou fazer uma aventura perto de casa. Afinal, ninguém pode te dizer o que realmente te faz feliz. Você deve decidir e descobrir isso sozinho.

Então, descubra e faça isso regularmente. Se ler te deixa feliz? Fantástico. E se você pode compartilhar esse interesse com alguém? Melhor ainda.

O tédio manifesta-se como uma inquietação, mais constantemente à espera de que a vida aconteça nos nossos próprios termos. Com isso em mente, você poderia dizer, talvez, que o tédio seja o nosso único privilégio. Ele se reflete na angústia de não estar vivendo uma aventura. Mas isso faz parte da experiência humana.

Essencialmente, o tédio é a única vez em que dedicamos atenção plena para os nossos pensamentos. Agora, em vez de apenas concordar comigo, eu o encorajo a questionar-se:

Por que você quer fugir do tédio?

Se não há uma razão lógica para querer isso, tudo bem. Mas, se a sua razão para fugir do tédio seja algo como “quando eu envelhecer, eu não quero ter arrependimentos”, então eu acho que você precisa refletir melhor.

É bem provável que você queira e realmente vá celebrar o seu aniversário de 70 anos mergulhando em uma das ilhas paradisíacas de Seychelles. Ou, aos 80, você pode estar fazendo um safári em Botswana.

Eu não tenho ideia por que você gostaria de fugir do próprio tédio. Mas, se você realmente quer isso, não há nada que o impeça. Vá lá e aventure-se. É a sua vida, ela pode ser tão tediosa quanto você quiser.

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