Aprendizado Relacionamentos

O que aprendi sendo a irmã caçula

Eu sou a irmã caçula de cinco irmãos. Isso mesmo, eu tenho três irmãos e duas irmãs, que por serem mais velhos do que eu me ensinaram bastante nestes últimos 23 anos. E enquanto o tópico deste artigo é falar sobre o que eu aprendi sendo a irmã caçula, eu vou falar um pouco sobre cada um dos meus irmãos, em ordem de nascimento.

Vamos começar com os ensinamentos dos meus irmãos mais velhos, o Carlos e a Iliane

O meu irmão mais velho decidiu mudar do campo para a cidade de Joinville logo que completou 18 anos. Foi um ato de bravura, pois tudo o que ele tinha era o dinheiro da passagem de ônibus, e mais alguns trocados, emprestados do nosso avô. Em Joinville, ele teve que conciliar a nova rotina de trabalho em tempo integral com os seus estudos técnicos. Este ato, por si só, já me ensinou muito sobre trabalho duro e dedicação.

E se não bastasse, o meu irmão mais velho sempre foi o meu irmão querido. Quando ele voltava para casa na época de Natal, ele sempre me presenteava com algum brinquedo (o que raramente acontecia, porque, com tantos filhos, os meus pais não tinham condições econômicas para gastar com brinquedos para cada um de nós). A visita dele no fim de ano ainda é uma das razões pelo meu sentimento de nostalgia da minha infância.

A minha irmã mais velha nasceu um ano depois do meu primeiro irmão. Quando eu nasci, 14 anos depois dela, a Iliane já estava trabalhando e vivendo fora de casa, e por isso eu tive pouco contato com ela durante a minha infância. Mas, quando chegou a minha vez de fazer o mesmo (sair de casa para trabalhar aos 13 anos de idade) foi ela quem me deu todo o apoio.

Eu vivi com a Iliane e seus dois filhos pequenos por um ano completo, quando eu ainda estava cursando o ensino médio. E se hoje eu tenho um maior entendimento sobre maternidade é porque aprendi com ela, que foi mãe solteira do Rômulo e da Rúbia.

E agora, vou te dizer algo sobre os meus irmãos do meio: o Luciano e a Márcia

Em uma família tão numerosa quanto a minha, há o senso comum de que o primogênito é o mais responsável, o caçula é o mimado e o filho do meio é sempre quem sobra em relação aos outros irmãos. Mas, isso nem sempre é o caso.

Ser irmão do meio tem suas vantagem. Eles podem se sentir estimulados a ir atrás do que precisam e desejam, tornando-se mais independentes, sem interferências ou exigências dos pais e de outros. E é essa independência que eu aprendi com o Luciano, que sempre preferiu lidar sozinho com os desafios que ele encontrou na vida dele.

O mesmo senso de independência também explica algo sobre o que eu aprendi com a minha irmã do meio, a Márcia. Quando eu ainda era criança, a Márcia foi um modelo para mim. Eu não tinha muitas outras referências para me espelhar e tudo o que eu queria era ter o mesmo talento da minha irmã. Ela era esperta em atividades manuais, tocava violão, pintava telas e fazia a melhor pipoca com melado do mundo.

Ter a minha irmã por perto também me dava uma perspectiva sobre como seria a minha própria trajetória. Ela encontrou o amor da vida dela muito cedo e, depois de quase uma década namorando, os dois casaram-se. Eu achei que o mesmo aconteceria comigo, mas nesse aspecto a minha história se desviou do roteiro.

A Márcia me ajudou muito durante a infância e depois, na adolescência, seja nas tarefas de inglês ou me emprestando os seus livros no momento para estudar para o vestibular. Depois, foi ela quem me indicou ao meu primeiro emprego. Se não fosse por ela, provavelmente eu teria tido experiências profissionais muito diferentes.

Finalmente, me resta falar do Anderson, o irmão que nasceu pouco antes do que eu

E, infelizmente, com o Anderson, eu não mantive uma ótima relação durante a infância.

Bastava que eu abrisse o pote de bolacha que a nossa mãe fazia para ele se aborrecer comigo. E de nada adiantava ir chorando reclamar para o nosso pai, porque aí sim os dois acabavam sofrendo as consequências.

Acho que ele gostava de brigar comigo porque pensava que eu era o “queridinha do papai”. Mas o nosso pai acabava gritando com os dois, com a mesma intensidade: “Nenhum de vocês deu comida para os cachorros!” “Por que ninguém varreu o quintal?!” 

O Anderson era muito bom em dizer algo pra me magoar. Mas nada como aquela frase que ele sempre repetia pra mim: “você foi encontrada em uma lixeira do hospital”.

Eu sempre acabava me vingando de alguma maneira. Quando íamos assistir TV juntos, eu apontava para os personagens mais feios na tela e dizia “olha aí você!”

Quando a gente discutia sobre qual canal de televisão assistir, com muita frequência, ele desligava a televisão e saia da sala para fazer qualquer coisa que fosse mais divertida. Eu acabava ficando frustrada por não ter a coragem de apertar o mesmo botão outra vez.

Eu jamais poderia fazer com que o Anderson entendesse os meus sentimentos. Porque eu tinha medo de chegar perto dele até mesmo para conversar. Fazendo isso eu aumentaria significativamente as minhas chances de levar uma surra.

O que eu nunca consegui entender é como as outras pessoas diziam, e ainda dizem, que eu sou tão parecida com cada um dos meus irmãos. Mas, agora eu entendo.

Eu entendo porque eu finalmente compreendi o que cada um deles me ensinou.

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