Estilo de vida Mudança

E se todas as pessoas fossem vegetarianas?

Imagine ser convidado para um almoço na casa do seu amigo, onde todos os aperitivos consistem em amêndoas, o prato principal em um tigela de quinoa com brócolis e feijão, e a sobremesa, uma deliciosa torta vegana de coco a base de espinafre.

Talvez você consiga pensar nesse convite como algo nada extraordinário, caso você e o seu amigo sejam veganos (indivíduos que não comem alimentos de origem animal). Mas muitas pessoas ainda são avessas à ideia de ir para um almoço que não sirva carne.

Agora, imagine que você e seu amigo fossem apenas vegetarianos (indivíduos que comem de tudo, exceto carne). E vamos um pouco mais além, imagine que todas as demais 7,5 bilhões de pessoas no Planeta imediatamente se tornassem vegetarianas, incluindo você e seu amigo.

Você pode ter alguma ideia de como seria o nosso estilo de vida então? E quais seriam as repercussões dessa escolha no futuro da alimentação em todo o planeta?

Para ser honesta, eu não tenho uma ideia precisa de como tudo a nossa volta seria, mas diferentes estudos já estão tentando desvendar essa improvável realidade. E por causa de todas essas descobertas que eu decidi escrever este artigo.

Vamos imaginar o impacto ambiental

Se todos se tornassem vegetarianos (ou deixassem apenas de consumir carne) em 2050, as emissões de gases causadores do efeito estufa cairiam por volta de 60%. Mas, o gado de corte não representa apenas uma fonte de emissões de gases, eles ocupam espaço.

Agora, se todos nos tornássemos vegetarianos imediatamente, daríamos espaço para a conversão de pastagens em habitats nativos, o que provavelmente seria benéfico para a recuperação da biodiversidade. Grandes herbívoros, como búfalos, recuperariam o seu espaço, enquanto predadores, como lobos, já não seriam sacrificados por atacar o gado.

Os antigos pastos poderiam ser utilizados para preencher lacunas no fornecimento de alimentos a nível global. Embora seja um aumento relativamente pequeno das terras agrícolas, isso seria mais do que compensar a perda de carne, porque um terço da área agrícola atual é dedicada para produzir alimentos para o gado – e não para humanos.

Tanto a restauração ambiental como a conversão da agricultura baseada em plantas requerem planejamento e investimento. No entanto, as pastagens tendem a ser altamente degradadas. Você não poderia simplesmente tirar as vacas da terra e esperar que ela se torne uma floresta rapidamente por conta própria.

Alem disso, as pessoas anteriormente dedicadas à pecuária também precisariam de assistência para uma nova atividade econômica, seja na agricultura, ajudando no reflorestamento, ou produzindo bioenergia de subprodutos agrícolas usados ​​como alimento para o gado.

Os efeitos econômicos seriam profundos

Caso não proporcionemos alternativas econômicas e subsídios para os antigos criadores de gado, provavelmente enfrentaríamos um desemprego significativo e agitação social – especialmente em comunidades rurais com vínculos estreitos com a indústria.

Segundo estudos, há mais de 3,5 bilhões de ruminantes domésticos na Terra e bilhões de galinhas criadas e mortas a cada ano para alimentar as pessoas. Se abandonássemos essa indústria de uma hora para outra, estaríamos diante de uma ruptura econômica. E mesmo os melhores planos não seriam capazes de oferecer meios de subsistência para todos.

Atualmente, cerca de um terço da terra mundial é composta de pastagens áridas e semi-áridas que só podem apoiar a agricultura animal. Sem gado, a vida em certos ambientes provavelmente se tornaria impossível para algumas pessoas. Estou falando, especialmente, de grupos nômades como os mongóis e os berberes que, sem os seus animais, teriam de se instalar em cidades ou vilas – perdendo a sua identidade cultural no processo.

Mesmo aqueles indivíduos cujos meios de subsistência não dependem de animais iriam sofrer. Numerosos grupos de pessoas em todo o mundo usam o gado como presente em casamentos e jantares comemorativos. Imagine também como seria a ceia de Natal sem o peru assado. Ou, todos os outros pratos à base de carne, que são emblemáticos para certas regiões e países.

Talvez, a ruptura econômica e o impacto cultural que poderíamos causar se parássemos  de consumir carne seja a razão pela qual os esforços para reduzir o consumo deste alimento, muitas vezes, vacilam.

O efeito sobre a saúde pode ser incerto

O vegetarianismo levaria a uma redução global da mortalidade. Um estudo provou isso, mostrando que, se todos fossem vegetarianos até 2050, veríamos uma redução da mortalidade global de 6% a 10%, graças a uma diminuição da doença cardíaca coronária, diabetes, acidente vascular cerebral e alguns tipos de câncer.

A eliminação da carne vermelha pode representar metade desse declínio, enquanto os benefícios remanescentes são graças à redução do número de calorias que as pessoas iriam consumir ao aumentar a quantidade de frutas e vegetais em suas dietas.

Uma dieta vegetariana para todas as pessoas do mundo ampliaria ainda mais esses benefícios: isso eliminaria cerca de 7 milhões de mortes (humanas) por ano, enquanto o veganismo atingiria essa estimativa em até 8 milhões de mortes evitadas.

Menos pessoas que sofrem de doenças crônicas relacionadas com alimentos também significaria uma redução nas contas médicas, economizando cerca de 2-3% do produto interno bruto global.

Mas, percebendo esses benefícios projetados, para manter a saúde humana seria necessário substituir a carne por outros alimentos igualmente nutritivos. Acontece que os produtos de origem animal contêm mais nutrientes por caloria do que alimentos vegetarianos, como arroz e feijão.

Tendo isso em mente, o vegetarianismo em todo o mundo poderia criar uma crise na saúde mundial, especialmente nos países em desenvolvimento, que não conseguiriam produzir e oferecer as melhores alternativas de alimentos, compostas de macro e micronutrientes que o organismo humano necessita.

A resposta parece ser a moderação

Felizmente para muitos, o mundo inteiro não precisa se converter ao vegetarianismo, nem ao veganismo, para colher os benefícios de uma boa alimentação. Em vez disso, a moderação na frequência e na porção de cada tipo de alimento é a chave.

Certas mudanças no sistema alimentar também nos encorajariam a tomar decisões alimentares mais saudáveis ​​e ambientalmente corretas – como colocar um preço mais alto na carne e fazer com que frutas e vegetais frescos sejam mais baratos e disponíveis.

Também devem ser colocados em prática os sistemas de criação de gado que prometem elevar o bem-estar animal e ambiental – e ainda assim serem lucrativos. Nestes sistemas, os criadores de gado manteriam a mesma renda, mesmo criando animais de outra forma.

De fato, já existem soluções claras para reduzir os problemas que o mundo enfrenta por causa do nosso consumo excessivo de carne e de outros alimentos de origem animal.

O que falta é implementar essas soluções.

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