Estilo de vida Mudança

Por que eu não quero voltar ao Brasil

Eu não vou enumerar aqui a quantidade de problemas, principalmente sociais, ambientais e econômicos que eu vejo no Brasil. E todo mundo está careca de saber que no nosso país falta segurança, educação e saúde pública. Falta tanta coisa e sobra tantas outras, como as desigualdades, exclusões e injustiças.

Não sei quando volto pelo simples fato de que eu não quero voltar. Eu gosto do estilo de vida que eu levo. Mas, a principal razão por que eu prefiro continuar vivendo fora é por que isso me dá chances de olhar para o mundo com outra perspectiva.

Viver fora me fez perceber que eu não preciso de luxos para ser feliz (embora eu esteja vivendo em um condomínio privado, com um campo de golfe do lado de casa). Eu percebo que com pouco dinheiro no bolso eu posso me divertir, ter uma vida cultural e ainda viajar de vez em quando. Eu percebo que a felicidade não se encontra em materialismo e que a autoestima não é relacionada com chapinha e unhas bem feitas.

Futilidades à parte, a vida longe do meu país me ensinou a aproveitar a vida. Aqui, as pessoas trabalham o necessário para garantir um lazer a nível máximo, um happy hour no final do dia, uma escapada no final de semana e umas férias de verão de um mês.

Horas extras, 60 horas de trabalho semanais, um final de semana de preocupação com prazos? Óbvio que isso acontece, mas não é regra. Conheço funcionários públicos que pedem redução de salário para poder ficar uma hora a mais com os filhos em casa.

A minha nova perspectiva me ensinou a ser mais tolerante, a respeitar mais as diferenças, a descobrir a diversidade de raças, culturas, estilos de vida e pensamento diferentes meu. Eu aprendi a conviver com famílias com dois pais, duas mães e até duas mães e um pai, a não falar mal de uma mulher escabelada na padaria, a não ficar horrorizada com um “corpinho” fora do “normal”.

Aprendi que o normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo, sem precisar de máscaras. E ao mesmo tempo aprendi que todos devemos cuidar do coletivo.

Aprendi que as diferenças nem sempre geram integração, e que podem causar conflitos. Que imigrante é uma classe de pessoa que tem que correr atrás, que tem que lutar para se estabelecer e que nem sempre consegue o seu lugar ao sol.

Aprendi que o ser humano, não importa a sua nacionalidade, está longe de ser perfeito, e apesar de tanta tolerância e igualdade por um lado, pode ser bastante preconceituoso e injusto por outro.

E depois de conviver com tantos outros valores e realidades, eu não quero voltar.

Quem, depois de voltar para casa em um lugar extremamente seguro, desfrutando do cheiro das flores sem precisar olhar tenebrosamente para trás, pensa em voltar? Quem depois de se habituar a fazer um piquenique no parque ou de observar velhinhos tomando cerveja felizes, no mesmo bar da garotada de 20 e poucos anos, deseja voltar?

Claro, nem tudo são rosas. Eu não tenho um trabalho formal por aqui. Eu apenas posso permanecer porque tenho um visto de acompanhante, que não me dá direito à nacionalidade. E, mesmo se eu pudesse permanecer por aqui por muitos anos, eu não vejo nenhum futuro profissional na minha área.

Meu consolo é que este mundo é enorme. Confesso que eu acredito que será difícil recomeçar tudo de novo em um país novo, mas quem disse que se eu voltasse ao Brasil eu não teria que recomeçar do zero?

E entre recomeçar com qualidade de vida e recomeçar rodeada de injustiças, eu só fico na dúvida porque neste último caso eu também estaria rodeada de muito amor, amigos e família (os únicos motivos reais que me fazem pensar em voltar para o Brasil).

O meu desejo é que todo mundo tivesse a oportunidade de sair da sua bolha, de ver o mundo com outras lentes, de aprender novos valores e, quem sabe, de voltar e conseguir um lugar melhor.

Honestamente, não existem desculpas para não arrumar as malas e partir. Mas, será mesmo que você estaria disposto a fazer isso? Eu não sei.

Adoraria poder voltar e tentar fazer do Brasil um lugar melhor para todos. Mas, ao mesmo tempo, eu me sinto ingênua em pensar que isso é possível. Ninguém tem a resposta e não sou a única em duvidar do “desenvolvimento” do Brasil.

A cada dia que passa longe da minha pátria, eu me sinto menos parte dos que ficaram. Já não penso em altos salários, altos cargos, muito dinheiro para ser feliz. Embora muita gente siga pensando ao contrário, dinheiro não é e nunca foi garantia de felicidade.

Felicidade para mim é isso, poder levar a vida sem pausa, mas sem pressa. Posso não estar com os bolsos cheios, mas percebi que não necessito nada disso para ter uma vida confortável, alegre e divertida.

Tive que cruzar o oceano para perceber isso? Sim. Não poderia ter aprendido tudo isso no Brasil? Claro que sim. Mas então eu não teria essa nova perspectiva.

E por enquanto, eu continuo aproveitando a oportunidade de fazer parte de outro mundo, que apesar de todos os problemas que existem aqui (como em um lugar qualquer), parece que é mais justo e respeitoso do que o lugar de onde eu venho.

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