Estilo de vida Mudança

Fora da zona de conforto pode ser um bom lugar

Já estamos na segunda metade do ano de 2015, e nesse ponto você já deve não apenas ter ouvido falar mas também já deve ter feito alguma coisa “fora da sua zona de conforto”.

Talvez você não tenha se aventurado em um bungee jumping, ou feito a volta ao mundo em 40 dias. Ou, não tenha entrado na sala do seu chefe recentemente, proclamando “eu me demito”, como eu mesma fiz algumas vezes.

Mas, é bem provável que você tenha esperado meia hora a mais para um atendimento naquela clínica odontológica. Ou, tenha esperado mais tempo na fila do supermercado, por causa do seu respeito em deixar a vez para os cinco aposentados e as duas grávidas antes de você. Nesses dois exemplos cotidianos, você pisou fora da sua zona de conforto, mesmo que você não tenha admitido enquanto isso acontecia.

E por mais que saltar em um bungee jumping possa parecer 300 vezes mais arriscado e amedrontador do que esperar mais tempo na fila do supermercado, existe algo em comum entre as duas experiências: o seu desconforto. E é exatamente esse o estado ideal para as coisas acontecerem. Eu vou explicar o por quê.

Mas, antes disso, eu te convido para levantar a bunda da cadeira, ou sair do sofá, ou levantar de onde você estiver neste momento, e seguir lendo até o final. Em pé.

Pronto? Muito bem!

Depois da cerimônia religiosa de casamento com a nossa família no Brasil, eu e o meu marido seguimos direto para a nossa lua de mel. Francamente, eu desejaria ter estendido um pouco mais a minha estadia no país para comer mais coxinhas, pães de queijo e desfrutar das deliciosas sobremesas da minha mãe, e das boas conversas com os meus irmãos, cunhados, sobrinhos, etc. Mas lá fomos nós, recém-casados, rumo a Seychelles.

Só para dar um pouco de contexto, a República das Seychelles (pronunciada say-shells) é uma pequena ilha situada no oeste do Oceano Índico. O país consiste em 115 ilhas tropicais, embora apenas dez sejam habitadas. A maioria dos povoados vive na ilha maior, Mahé, localizada a 1.800 km a leste da costa africana, onde ficamos alojados.

Só depois de ter chegado a Seychelles, que eu descobri que o príncipe William e a princesa Kate haviam escolhido o mesmo destino para a sua lua de mel, assim como Brad Pitt e Jennifer Anniston (claro, antes de eles se divorciarem). Obviamente, isso não me surpreendeu tanto quanto o fato de que essas ilhas, embora sejam consideradas o paraíso na terra e atraiam turistas o ano todo, ainda não sejam auto suficientes.

Por causa de razões como a natureza tropical das ilhas, as terras agrícolas são escassas, e Seychelles acaba importando a maioria dos seus recursos básicos, o que torna a compra de alimentos cara e a oferta de produtos no supermercado escassa.

Estávamos em nossa lua de mel, mas isso não quer dizer que esquecemos dos planos financeiros que havíamos feito antes mesmo de casar. E já nos primeiros dias de casados parecia impossível seguir os planos e economizar dinheiro, quando tínhamos que comer. O almoço no hotel custava os olhos da cara e uma lata de sardinha custava mais do que um almoço completo em um restaurante brasileiro.

Por que eu estou contando tudo isso?

Porque mesmo sendo uma experiência incrível, com lugares maravilhosos para visitar em diferentes cantos da ilha onde nos hospedamos, Seychelles me fez perceber o quanto ainda preferimos permanecer dentro da nossa zona de conforto.

Se chegamos a buscar uma lata de sardinha para almoçar, não quer dizer que estávamos preparados para viver nas mesmas condições que as famílias mais pobres daquela ilha vivem. Muitas delas se alimentam basicamente de plantas e frutos (a exemplo do fruto que se tornou símbolo de Seychelles, “breadfruit”). Nós apenas queríamos satisfazer a nossa necessidade mais básica, a de alimento.

Será mesmo? Naquele ponto, eu não fazia ideia da resposta para essa pergunta.

Mas eu sempre me orgulhei por não me deixar seduzir pela zona de conforto. Eu pedi demissão de um emprego sem ter nenhum dinheiro ou outro emprego à vista no começo da minha carreira. Eu terminei um relacionamento de cinco anos com casamento quase marcado por estar infeliz. Eu já viajei sozinha sem falar muito bem inglês. Até que eu já arrisquei bastante, concorda?

Esses são feitos admiráveis para muita gente, mas o que percebi é que mesmo sendo uma pessoa corajosa, eu tomei todas essas atitudes dentro da minha zona de conforto, por menor que ela fosse.

Quando eu não tinha emprego e dinheiro, eu ainda tinha a casa dos meus pais para recorrer a abrigo e comida. Quando eu terminei aquele velho relacionamento, eu tinha amigas solteiras para compartilhar tempo comigo. Quando eu viajei sozinha pelo mundo, eu tinha dinheiro suficiente para me livrar de perrengues, pelo menos por um tempo.

Mesmo quando nos colocamos em situações desconfortáveis, estamos sempre pensando em uma forma de continuarmos confortáveis, ainda que não no mesmo nível de antes.

A verdade é que em vez de “sairmos” dessa zona que criamos, nós deveríamos fazer ela ficar menor e menor, até o ponto em que ela é tão pequena que conseguimos nos acostumar e lidar com quase tudo.

Mais ou menos assim:

Entrar em contato com essa realidade, ver pessoas vivendo na mais precária condição humana, que não sabem se estarão vivas amanhã por causa doenças ou da falta de comida me fez perceber que a realidade fora dessa zona de conforto que tanto se fala por aí, ainda é mais confortável do que podemos imaginar. Me fez ver que a felicidade maior não está só no prazer das coisas boas, mas na superação das coisas ruins.

Depois dessa experiência, eu decidi que pelo menos uma vez por ano eu quero visitar algum lugar que me faça sentir desconfortável. Não quero ir só pelo prazer da viagem, apenas para fazer turismo e aproveitar o que o país tem de melhor, mas pelo aprendizado que só situações extremas e até negativas podem nos proporcionar.

Eu deixei Seychelles com um sentimento dissimulado. Parte de mim estava encantada pelas belezas naturais daquele lugar, pela riqueza cultural e por tudo ser tão exótico. Outra parte de mim dizia que eu ainda precisava encontrar uma resposta sobre por que é tão difícil sair da nossa zona de conforto, quando no fundo, sabemos que lá é o nosso lugar.

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