Casamento Liberdade

A linha tênue entre o fim e o início da liberdade

Se você já leu algum dos artigos em que eu falei sobre isso, você já sabe que eu conheci o meu marido durante um vôo.

O que talvez você não saiba é por que eu me interessei por um garoto como ele, que nem me cumprimentou quando se sentou em uma poltrona ao meu lado no avião. Claramente, ele devia estar chateado. Mas de uma hora para outra, nós dois começamos a conversar.

Conversa vai, conversa vem, até que ele me disse que já tinha vivido em três diferentes países nos últimos oito anos, por consecutivas realocações em seu trabalho.

E o seu maior interesse? Viajar pelo mundo!

Parece que toda a minha hesitação em interagir com ele no começo se transformou em interesses. Eu queria saber tudo!

Como assim você pode viver em outro país enquanto trabalha na sua área? Que tipo de profissão é essa? O dinheiro que você ganha é suficiente para sobreviver? Em que países você viveu? E quais você visitou? Ah, você é peruano, eu adoraria conhecer Macchu Picchu algum dia, você me daria alguma dica?

Curiosamente, essas são algumas perguntas que muita gente passou a me fazer depois.

Depois de trocar contato com aquele garoto, eu não parei mais de pensar naquele conversa. Embora eu dissesse que não estava apaixonada por ele, eu estava apaixonada por aquele estilo de vida que ele levava. Viver fora do país e ainda ganhar dinheiro. Isso parecia incrível.

E no dia seguinte, quando ele me escreveu em um email eu respondi.

Pouco mais de três meses depois da nossa primeira conversa no avião, eu estava embarcando com aquele garoto para o Peru. Ah, e a melhor parte: eu não estava indo apenas para conhecer Macchu Picchu, eu estava indo para me casar. 

Este foi o fim da minha liberdade

Enquanto eu poderia ter seguido a minha vida, depois de já ter feito algumas viagens de autoconhecimento, e seguir me aventurando e explorando o mundo sozinha, eu estava fantasiada pela ideia do casamento.

Naturalmente, a minha família e os meus amigos chegaram a dizer que eu estava ficando maluca. “Como assim, você vai casar com um garoto que acaba de conhecer?” “Ainda mais, que conheceu em um avião!” Mas, em vez de levar esses questionamentos a sério, pela primeira vez em algum tempo, eu resolvi arriscar.

Me casar seria uma nova oportunidade para mim em termos de autoconhecimento. Também seria a oportunidade de me tornar livre. Livre de longas jornadas de trabalho. Livre de críticas vindas de todos os lados. E, finalmente, livre da preocupação em construir o meu futuro sozinha.

O que eu não considerei é que esse seria também o fim da minha liberdade. Eu estava abrindo mão de tomar as minhas próprias decisões sozinha, de despertar e ir para a cama na hora que eu quisesse, de preparar um café e me sentar por horas lendo um livro. De “esquecer” de almoçar, para continuar lendo. E de outras coisas do gênero.

Neste ponto você é quem deve estar se questionando: “Por que então casar?”

E eu te digo que eu decidi me casar simplesmente porque, na minha opinião, um determinado estilo de vida sempre vem com um prazo de validade.

Eu sei que muita gente deve estar me achando idiota por querer abandonar a liberdade de viver a vida em meus próprios termos, mas para vocês entenderem melhor eu vou listar os principais motivos que me fizeram tomar essa decisão:

1. Liberdade não significa viver eternamente só

Embora seja uma ideia sedutora, levar a vida sozinha não é tão diferente da vida de casados.

Quando temos um trabalho, seja como freelancer ou o nosso próprio negócio, não tem como escapar de alguns compromissos, entregas e tarefas que precisam ser feitas em um determinado prazo. E se você é solteiro, poderia facilmente dar prioridade ao aspecto profissional da sua vida. Mas, chegar do trabalho no fim do dia e encontrar a casa vazia pode ser extremamente deprimente, principalmente quando se tem 20 e poucos anos de idade e a recompensa financeira daquele trabalho não é tão brilhante assim.

2. Em algum momento você desejará ter o seu próprio lar

Mesmo que eu tenha tido o privilégio de passar os anos da faculdade vivendo na casa do meu irmão (que nunca me cobrava aluguel), eu sentia que estava “vivendo de favor”. Eu sentia que estava invadindo o espaço dele e que em algum momento eu deveria ter o meu próprio lar. 

Foi só depois de me casar e mudar de endereço que eu me senti verdadeiramente “em casa”. Eu poderia fazer as minhas bagunças e organizar na hora que eu quisesse, eu poderia entrar em casa fazendo barulho, sem medo de despertar ninguém (o meu irmão sempre trabalhou em horário noturno e dormia durante o dia). Eu também senti mais liberdade para convidar alguém a me visitar, porque, afinal, aquela era a minha casa.

3. Acabamos descobrindo que expectativa não é a realidade

O que as fotos no Instagram prometem sobre um casamento na nossa geração se trata apenas de um dia, e não do casamento em si. Basta fazer uma busca rápida para descobrir as tendências para o “grande dia”, que ficamos ainda mais apaixonados. Tudo parece perfeito: “Aquele vestido, aquelas flores, ah, aquele cenário pitoresco, quanto amor!” Mas, a realidade pode não ser assim tão colorida.

Quando toda a decoração do nosso casamento já estava guardada em caixas na despensa, toda aquela pompa em torno do casamento despencou como uma ave sem asas. As primeiras discussões sobre como economizar dinheiro, ou sobre as nossas diferentes crenças ou preferências começaram a se acumular a ponto de eu me sentir aprisionada, um sentimento aposto à liberdade.

4. É difícil manter aquela mesma paixão do início

Se você ainda não entendeu isso, leia o tópico “3” novamente. Já nos primeiros meses depois de casados, eu e meu marido estávamos vivendo como companheiros de quarto.

Eu já mencionei neste artigo que não me apaixonei “à primeira vista”, porque acredito que o amor se constrói ao longo da vida (e é isso que nos mantém unidos). Claro, eu me apaixonei em algum momento, mas essa paixão realmente desvanece rápido.

Nós buscamos terapia de casal, buscamos conselhos da família, oramos e compramos vários livros sobre como fazer um casamento perdurar. Mas, foi só depois de um processo de amadurecimento juntos que aprendemos que a paixão tem mais a ver com persistência do que com uma dádiva que vem dos céus.

5. No fim das contas, a vida é feita de relacionamentos

Conhecer novos lugares, culturas, comidas e jeitos diferentes de se viver é uma das coisas mais incríveis da vida. E eu ainda acredito que tudo isso é liberdade.

Eu queria que todo mundo pudesse viajar para o maior número de lugares possível e sempre vou encorajar as pessoas a priorizarem viagens à um carro novo, roupas e até à compra de uma casa, pois viajar enriquece muito mais do que qualquer bem material. 

Mas, mais importante do que tudo isso são os relacionamentos que cultivamos ao longo da vida. De todos os lugares onde passei, os que eu mais tenho vontade de voltar são aqueles onde eu deixei amigos e pessoas queridas. No meu caso, esse não é exatamente “um lugar”, mas o universo em si.

Depois de conhecer o meu marido, ironicamente em um voo, eu me tornei uma pessoa completamente diferente da pessoa que eu era quando embarquei nessa grande aventura que é o casamento. E acredite, hoje eu me considero mais livre do que nunca.

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