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O que explica a nossa paixão pelos doces

Quem me conhece sabe que eu sou apaixonada por doces. Eu começo todos os meus dias comendo algo doce, o que é geralmente uma fruta. Depois do almoço e do jantar, eu acabo comendo um muffin, um pedaço de brownie ou qualquer outra guloseima que eu inventei na minha cozinha.

Essa paixão por doces sempre esteve comigo, embora, antes, eu não tinha certeza de onde ela vinha. Eu achava que essa paixão surgiu na minha infância, enquanto eu passava horas na cozinha com a minha mãe e as minhas irmãs, ajudando-as no preparo das sobremesas para o final de semana, ou das guloseimas para o café da tarde.

Mas essa não era uma boa explicação. Pelo menos para mim, essa era apenas uma desculpa para que eu continuasse me indulgindo com doces, dia após dia, ano após ano.

E era mesmo difícil lutar contra desculpas assim. Não eram apenas os doces, mas toda a experiência de desfrutá-los que me deixava aprisionada por esta paixão. Parte dessa experiência era o fato de que eu mesma tinha a responsabilidade de recolher os ovos, enquanto a minha mãe preparava a manteiga, separava o leite fresco e trazia as frutas e as nozes do quintal direto para a cozinha.

E na medida que comecei a buscar respostas baseadas na ciência, eu comecei a entender.

O que vai para a nossa mesa não alimenta apenas o nosso corpo mas também as nossas lembranças e os nossos sentimentos. Um grupo de cientistas da universidade de Brown nos EUA reconheceu que as lembranças trazidas pelo cheiro de alimentos são capazes de nos levar de volta para a faixa dos nossos seis aos dez anos de idade. Isso explica melhor por que eu mantenho doces lembranças das sobremesas, waffles, biscoitos e tortas que a minha mãe preparava antigamente.

Eu admito que embora eu possa recordar muito bem do formato em corações daqueles waffles, e até mesmo lembrar do som que eles produziam enquanto eu mordia em suas bordas, o que ficou mais claro na minha mente é aquele cheiro de baunilha que se espalhava pela cozinha da minha mãe.

A ciência diz que quando reinventamos em nossa mente o gosto ou cheiro de algo do passado, estamos revisitando uma experiência que a memória tem sido capaz de manter viva de alguma maneira.

E quando eu comecei a entender sobre a compreensão científica a respeito das memórias que os doces nos proporcionam, eu decidi realizar a minha própria experiência. Eu passei a reconstruir as mesmas receitas que eu apreciava durante os primeiros anos da minha vida. Estas eram as mais tradicionais do começo dos anos 90 no Sul do Brasil.

Mas, eu já não estava no Brasil, muito menos nos anos 90. E como eu, outras pessoas muitas vezes nem percebem como suas receitas preferidas da infância se alteram ao longo do tempo para acomodar diferentes ingredientes, tradições e utensílios de cozinha, ainda mais quando se mudam para um novo país. O que percebemos é que um doce qualquer parece ter a capacidade de nos levar de “volta para casa”.

E a minha experiência de reconstruir as doces receitas do meu passado se tornou mais difícil do que eu imaginava. A manteiga processada que encontro no supermercado da cidade onde vivo tem uma lista de aditivos que vai bem além de leite fresco. A farinha de trigo contém novos estabilizantes e aditivos que se tornam um fracasso na hora de reproduzir os nutrientes perdidos durante o seu processo de fabricação.

E, como resultado, aqueles waffles preparados pela minha mãe já não poderiam ser reproduzidos, ainda que a receita continuasse intacta. E isso também tem uma explicação. Filósofos e psicólogos discutem que não é apenas o sabor dos alimentos que mudou, mas o paladar e os hábitos de quem os degusta. Logo, o problema não está nos waffles, mas na mudança de hábitos que repercutiu na mudança das minhas percepções.

Quando eu passei a viver no Peru, eu descobri que Moquegua, onde vive a família do meu marido, é reconhecida nacionalmente por suas atividades de confeitaria. Que sorte a minha! Eu devo ter muita sorte mesmo, porque acabei de ser presenteada com o livro ‘Los Dulces de Moquegua’.

O livro, escrito por Rosario Olivas, uma grande escritora culinária, e Sandra Plevisani, chef da confeitaria peruana, revela as receitas dos autênticos doces moqueguanos, enquanto narra a história dessa conservadora cidade peruana. Vale dizer que Moquegua não é apenas conhecida por toda a sua variedade de doces, embora isso seja o que mais me interessava saber sobre lá.

Enquanto eu buscava explorar algumas das decadentes receitas de doces apresentadas naquele livro, eu descobri que antigamente as famílias moqueguanas mais tradicionais se mantinham das vinícolas e do pisco, e os ensinamentos sobre os processos de produção eram passados de geração a geração, tanto que as crianças já sabiam no que iriam se dedicar quando se tornassem adultas.

Na verdade, Moquegua se tornou tão conhecida pelos seus doces quase por acaso. A principal atividade econômica da região sempre foi a produção de vinho, além da exportação de azeitonas, azeite, licor de uva, pisco, abacate e frutas. Mas, como antigamente as famílias usavam uma clara de ovo por cada barril de vinho fabricado, restava encontrar uma finalidade para as gemas. Assim surgiu a infinidade de doces e sobremesas à base de gema de ovo.

E mais uma vez, eu decidi fazer um experimento, tirando as receitas do papel e levando para a minha mesa. Como era de se esperar, dessa vez, eu não tive memórias do meu passado, porque eu nunca havia provado nada parecido. No entanto, as emoções que essas novas receitas provocaram em mim foram predominantemente positivas. E instantaneamente, eu senti como se estivesse me apaixonado outra vez.

Mesmo que eu tenha ficado com um sentimento de nostalgia por já não poder replicar as receitas da minha mãe, eu abracei uma nova paixão. E se for necessário um novo experimento científico para justificar por que um sentimento como este pode ser retomada a qualquer momento, eu estarei disposta a participar.

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