Aprendizado Hábitos

A geração que não lê, mas curte e compartilha

Quantas vezes durante o último ano você foi até uma livraria ou biblioteca apenas para fazer uma pesquisa? Quantas destas vezes você voltou para casa com um livro, comprado ou emprestado? E quantas vezes no mesmo período de tempo você abriu uma página na internet e logo “curtiu” e compartilhou a mesma nas redes sociais?

Ei, eu não estou julgando, e julgar nunca será o meu objetivo aqui.

O fato de que estamos curtindo e compartilhando mais conteúdo na internet também não significa que não estamos lendo. Ainda assim, estudos e a minha própria experiência têm provado que nós, como geração, estamos transformando os hábitos de leitura.

Nós começamos deixando os livros didáticos nas prateleiras, enquanto fazemos uma pesquisa rápida no Wikipedia. Se temos uma dúvida qualquer, raramente investimos tempo e dinheiro na compra de um manual sobre aquele tópico. Em vez disso, usamos o Google, os fóruns ou os grupos de discussão nas redes sociais para nos orientar.

E quando tudo o que desejamos é uma leitura mais descontraída, claro que poderíamos mergulhar em um bom livro de ficção, mas temos a opção de fazer o mesmo “online”.

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Nossas pesquisas mudaram

Esta transformação nos hábitos de leitura da nossa geração começou antes mesmo de termos consciência disso.

Desde que eu estava na quinta série, eu lembro que poderia fazer as minhas pesquisas na internet de forma mais rápida e precisa do que eu faria com qualquer “livro texto”. Por quê? Simplesmente porque a grande maioria dos livros didáticos disponíveis na biblioteca escolar já haviam se tornado obsoletos.

Além disso, a internet me oferecia uma informação extremamente mais rápida. Bônus: era gratuita. E se não fosse gratuita, eu iria procurar em outra página até que encontrasse o mesmo nível de qualidade de conteúdo sem nenhum custo.

Então você pode me questionar: “Com um orçamento limitado e recursos gratuitos ilimitados, existe algum tipo de livro que possa capturar o seu interesse?” A minha resposta é um retumbante “SIM”.

Mas, mesmo que eu tivesse o dinheiro para comprar todos os livros didáticos que eu necessitava desde os primeiros anos da minha idade escolar, a maioria deles teria coletado pó em minhas prateleiras durante todo o semestre.

Eu apenas usei livros durante o ensino fundamental e médio porque eles eram gratuitos (de escola pública) e o meu acesso à internet era limitado a poucas horas semanais, já que eu não tinha acesso à internet em casa.

Mas, no tempo na faculdade foi outra história.

A geração que não lê, mas curte e compartilha
Para que realmente servem as bibliotecas?

Em 2010, eu me graduei pela Universidade Anhanguera, uma das mais populares do Brasil, tendo feito uma média de 80% das minhas pesquisas na internet e 20% em livros.

Quando se tratava de escrever trabalhos de pesquisa, eu conseguia encontrar tudo o que eu precisava online. Isso acontecia por meio da biblioteca virtual da mesma universidade e da infinidade de outros recursos disponíveis na ponta dos meus dedos.

A biblioteca online da Anhanguera possui uma incrível base de dados que abriga uma oferta extensa de livros e revistas científicas, e eu suspeito que a maioria das universidades está se movendo para disponibilizar mais recursos dessa forma.

Diante do acesso a tantos recursos como um importante aspecto na transformação dos hábitos de leitura da nossa geração, há evidencias de que lemos, desde que o conteúdo tenha apelo visual.

Quer dizer que o aspecto que torna qualquer livro mais legível para millennials são os elementos gráficos. O segundo aspecto tem a ver com o estilo da escrita na linguagem que estamos acostumados a interpretar.

“Hummm, interessante, esta aí a razão porque passamos tanto tempo na internet.”

Mas, calma, porque passar tanto tempo na internet não quer dizer que estamos lendo em profundidade. Alguns chegam a dizer que uma leitura de 140 caracteres ou menos pode ser enriquecedora, mas como investir em livros didáticos, eu não compro essa ideia.

Primeiro porque na internet podemos estar simplesmente consumindo as “notícias” que a mídia quer que consumamos. Um estudo realizado neste ano (2017) informou que millennials chegam a consumir 72 minutos dessas “notícias” por dia, em comparação com apenas 60 minutos em 2006.

Em segundo lugar, a leitura pode não ser uma prioridade, quando tudo o que queremos é curtir e compartilhar. E isso nos leva ao outro aspecto nesta transformação nos hábitos de leitura: estamos nos tornando muito bons “scanners”.

A geração que não lê, mas curte e compartilha
Somos “scanners” por natureza

Por causa de tanto acesso à internet, o nosso cérebro se tornou capaz de executar certas tarefas perceptivas mais rapidamente do que as gerações passadas fariam, e somos capazes de manter mais itens em nossa “memória de trabalho”.

A imersão digital deu à nossa geração novas habilidades visuais. Nós aprendemos a desenvolver os filtros para decidir o que é importante do que não é. E para lidar com toda a informação de entrada, claro que você precisa ser um ótimo “scanner”.

Quer dizer que somos capazes de receber uma grande quantidade de informações visuais ao mesmo tempo, provavelmente mais do que as gerações passadas, desde que seja apresentado de forma atrativa e facilmente digerível.

Isso torna o design tão importante, se não mais importante, do que uma boa escrita.

Alguns autores chegam a descrever como e por que a nossa geração desenvolveu habilidades de digitação tão fantásticas e explica como essa habilidade também contribui para nos tornar leitores mais sofisticados.

Independente de como lemos, somos os provocadores desta transformação nos hábitos de leitura e estamos mais sintonizados com a forma como a informação chega aos nossos olhos. É isso o que nos diferencia dos leitores das gerações passadas, que tendiam a ignorar o design deficiente e se concentrar no significado.

E se olharmos ainda para os mais jovens na nossa geração (aqueles que estão ingressando na universidade hoje) fica claro que eles preferem ler sobre lançamentos de filmes e destinos de viagem, em vez dos textos monótonos de seus livros didáticos. Se você duvida, pergunte aos meus sobrinhos.

Em última análise, enquanto muitos de nós não lêem livros físicos em si, mas recorrem ao Google para informações relevantes, a transformação nos hábitos de leitura que estamos provocando hoje terá efeitos ainda maiores nas futuras gerações.

 

2 comments

  1. (Dei aquela “curtida” no post, mas li também, hein! Hahaha)
    Muito boa reflexão, estamos realmente nos tornando mais “scanners” e menos leitores. Isso me lembrou uma crítica do Mario Vargas Llosa (que é justamente do seu atual lar, as coincidências nos detalhes não param), em “A Civilização do Espetáculo”. Lembro dele comentar sobre o receio de que os livros em papel até cheguem a acabar um dia… Mas tenho esperança de que vão sobreviver (e serem lidos, que é o principal), pelo menos por umas próximas gerações (ou enquanto papel existir em quantidade suficiente pra isso)… se depender de nós, vão!
    Beijo, e quando eu pretender passar de novo pelo Bosque El Olivar vou querer picnic mesmo, hein!

    1. Muito obrigada por (realmente) ler e comentar! 🙂

      Também acredito que as previsões do Mario estejam certas. Os livros (em papel) continuarão existindo por algum tempo. Enquanto isso, somos os “privilegiados” por usufruir destes dois universos simultaneamente: a internet e a arte física.

      PS.: Me avisa quando estiver em Lima 😉

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