Estilo de vida Millennials

Como estamos redefinindo o sucesso

O meu amigo formado em comércio exterior acaba de abrir um quiosque na praia de Copacabana. A minha amiga publicitária pediu demissão de uma das maiores agências do país para trabalhar como nômade digital. Outro amigo finalmente desistiu de procurar emprego na sua área e abriu um restaurante, enquanto mais um de meus amigos trabalha numa rede de fast food enquanto segue na faculdade.

O que todos eles têm um comum além de serem meus amigos?

Dica: todos parecem contentes com as suas escolhas de vida e carreira.

E enquanto você tenta opinar a sua resposta, vamos para o contexto de como todos os meus amigos chegaram aonde estão.

Antigamente, costumava haver uma escada para o sucesso. Na base, estavam a faculdade, depois um bom emprego, o casamento, a compra de uma casa, a formação de uma família e, finalmente, a aposentadoria. Claro, nem todo mundo seguia a mesma direção, mas esse era o “padrão” para “a vida boa”. Quem chegasse “lá” poderia ser considerado bem-sucedido.

Algumas pessoas questionaram essa escada como sendo realmente “a vida boa”, mas essas eram os hippies ou os malucos, para quem não valia a pena prestar atenção.

Agora, tudo isso mudou: a minha geração já não tenta subir uma escada. Mas, antes de zombar, pensemos nisso por um segundo.

Podemos chegar "lá" sem uma escada
Podemos chegar “lá” sem uma escada

O primeiro degrau na escada [a faculdade] costumava ser visto como um passo direto para o sucesso. Agora, para muitos de nós, é um tiro para a dívida dos empréstimos estudantis, sem garantia nenhuma de um “bom trabalho”.

Engraçado pensar que o modelo de sucesso da geração dos nossos avós também incluía uma família bem estruturada. Um bom casamento, filhos, comida na mesa, lençóis limpinhos. Uma pessoa bem-sucedida era aquela que tinha uma família que desse certo.

E assim, os nossos avós criaram os nossos pais: esperando que eles cumprissem essa grande meta de sucesso, que era formar uma família sólida. Mas isso não foi bem o que aconteceu. Os nossos pais são a primeira “geração do divórcio”, responsáveis pelas famílias desconstruídas.

Então, os nossos pais encontraram outro modelo de sucesso: uma carreira. Trabalharam duro, abriram seus negócios, suaram a camisa. Depois disso, nos deram o melhor que puderam. Eles se consideravam bem-sucedidos por isto: uma carreira sólida, uma casa quitada, aplicações de dinheiro no banco. Isso era tudo.

E foi assim como os nossos pais nos criaram, nos dando os instrumentos para a nossa formação, para garantir que alcancemos o mesmo “sucesso”. Eles nos ensinaram a estudar, investir e planejar. Deram os instrumentos e obedecemos. Estudamos, passamos nos processos seletivos, ocupamos cargos. E agora? O que está acontecendo?

Muitos entre nós, como o meu amigo que mencionei anteriormente, chegam a trabalhar em redes de fast food enquanto deixam seus currículos em estágios não remunerados. E estes são os sortudos. Porque, para aqueles que nem chegam à faculdade, a taxa de desemprego é maior ainda.

Outros entre nós vendem o seu carro, dividem o mesmo apartamento com mais três amigos, abrem mão dos luxos e não se importam de viver com dinheiro contado.

Enquanto isso, os executivos acham que seriam mais bem-sucedidos se largassem tudo para viajar pelo mundo; os viajantes acham que seriam mais bem-sucedidos se fossem professores de ioga; e os professores de ioga acham que seriam mais bem-sucedidos se vivessem em uma cabana como os monges budistas.

Você pode me dizer “ah, eu quero ver quanto tempo eles vão aguentar sem ganhar bem, sem pedir dinheiro para os pais”. Mas, não é isso o que normalmente acontece. Por que?

Simplesmente, porque agora reconhecemos que a nossa definição de sucesso deve estar alinhada com os nossos valores.

E, diferente dos que muitos possam pensar, nós valorizamos o amor e a família. Mas, se não nos casarmos, tudo bem; se casarmos e nos divorciarmos, tudo bem também; se decidimos não ter filhos, tudo bem. Porque nada disso define o que é sucesso para nós.

Quanto às nossas carreiras, se quisermos nos tornar CEOs de uma multinacional, tudo bem; se quisermos trabalhar  em um café, tudo bem; se quisermos ensinar matemática, tudo bem; se quisermos vender brigadeiros, qual seria o problema?

Quanto à ideia de que todos nós devemos nos esforçar para possuir uma casa, essa se tornou uma grande ironia para a nossa geração. Vivemos em uma crise que se originou no mercado imobiliário, porque seriamos nós que gastaríamos mais dinheiro naquilo que já não é um símbolo de sucesso?

Quanto à aposentadoria, sabemos que a previdência social do governo é uma palhaçada. Mas, antes de colocar mais dinheiro para garantir a nossa liberdade financeira no futuro, muitos de nós ainda têm outras prioridades, como a de pagar dívidas e comprar um bilhete para uma volta ao mundo.

E se já não tentamos subir uma escada para o sucesso, como podemos chegar lá?

Talvez, seremos capazes de alcançar o sucesso mantendo uma mentalidade “carpe diem”, que nos diz para tomar decisões com base nas consequências imediatas. Talvez nos tornaremos uma geração de hippies urbanos, ou de minimalistas que vivem no campo de forma subsistente.

Embora, essas sejam escolhas menos prováveis, continuaremos tentando medir o que o sucesso representa para cada um de nós.

Então, talvez, o sucesso seja medido pela felicidade? Quem sabe?!

Enquanto ainda não temos uma resposta definitiva para a grande questão deste artigo, o sucesso para a minha geração deve estar em algum lugar. Um lugar distante da escada de expectativas sociais e do consumismo, e mais próximo de uma trilha guiada pelo foco no bem-estar, comunidade e sustentabilidade.

Seguir nessa trilha que se adapta melhor às nossas próprias circunstâncias de vida certamente não será fácil, mas enquanto continuamos mentindo para nós mesmos que sucesso é aquele conto de fadas contado pelos nossos pais, dificilmente chegaremos “lá.”

Finalmente, o que todos os meus amigos que estão tomando novos rumos de carreira e fazendo decisões diferentes do que as que os seus pais fizeram no passado têm em comum é essa mentalidade, tão clara que chega a ser transparente:

Nós estamos redefinindo o sucesso de uma maneira imprevisível, única e absolutamente mais excitante do que aquela velha definição que dizia exatamente onde as pessoas poderiam chegar. 

 

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