Aprendizado Millennials

Qual é o nosso problema como geração

Antes de qualquer coisa, eu quero deixar isso bem claro: o problema não está na nossa geração em si. O problema são os estereótipos que tantos indivíduos em nossa sociedade lançam sobre nós.

Pessoalmente, eu odeio estereótipos. Não gosto do fato de que as pessoas pensem que eu deveria agir de certa forma por causa do meu sexo, personalidade ou nacionalidade. Eu odeio que as pessoas pensem que eu devo dançar samba, apenas porque eu sou brasileira. Odeio que as pessoas pensem que eu devia ser militar por causa da minha personalidade. Eu odeio tudo isso porque se trata de um conceito sobre mim com base em quem eu não sou.

Os estereótipos servem apenas para isso: causar ódio. E com o tempo, eles acabam se tornando um problema na sociedade.

De fato, diferentes estudos concluíram que as pessoas afetadas por um esteriótipo em uma determinada situação são mais propensas a serem agressivas e a exibir uma falta de autocontrole. Elas também têm mais dificuldade em tomar decisões racionais.

Isso acontece porque os estereótipos distorcem a imagem de como um indivíduo é para como ele deveria ser. Eu posso ver os efeitos negativos disso: danos psicológicos, mau desempenho em diferentes atividades, e problemas sociais como a discriminação, o sexismo e o racismo. Estes são verdadeiros problemas para uma sociedade multicultural como a que fazemos parte.

E se todos nós soubéssemos mais sobre as outras gerações e deixássemos de nos guiar pelo que acreditamos? Se praticássemos isso, naturalmente, seriamos capazes de evitar tantos estereótipos. A verdade que nós podemos fazer isso. Se realmente desejamos evitar estereótipos sobre a nossa geracão, devemos começar por nós mesmos, deixando de julgar aos outros e a nós mesmos.

Devemos começar estando cientes de que todos os estereótipos são ruins, porque todos eles causam males, para nós como indivíduos e para todos como sociedade. Tudo o que precisamos é nos manter abertos para enfrentar os estereótipos enraizados na sociedade e provar que podemos ser melhores como indivíduos, para então nos tornar melhores como um todo.

Isso pode parecer difícil a princípio, mas se mantermos o foco no problema, fica ainda mais difícil encontrar uma solução. E se você está disposto a provocar alguma mudança positiva, saiba que as maiores transformações começam com um primeiro passo.

Veja que quando Rosa Parks se recusou a deixar o seu assento no ônibus para uma pessoa branca a sua frente ela deu o primeiro passo para uma revolução. Aquela atitude marcou o início do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Ela sabia o que estava fazendo quando proferiu estas palavras: “As pessoas dizem que eu não deixei o meu assento porque eu estava cansada, mas não era cansaço físico. Eu estava cansada de aceitar.”

Todas as gerações têm uma parcela de bons e maus cidadãos, de vacilões e de pessoas brilhantes. Mas, há semelhanças em nossa luta. Quanto mais conseguimos nos identificar com o outro lado, menos confiamos nos estereótipos para preencher a lacuna entre nós. No final, todos nós somos seres humanos.

Um fator que parece realmente diferente para millennials é que nós crescemos com a tecnologia ao alcance das nossas mãos – sejam tablets, smartphones ou computadores. Para nós, Google não é simplesmente o nome de uma empresa, mas um verbo. O fácil acesso à tecnologia muda a forma como navegamos pelo mundo, como encontramos respostas, como nos conectamos e trabalhamos.

Mas, por maiores que sejam as nossas diferenças, nós merecemos ser tratados como pessoas comuns. A não ser que desejamos nos destacar. Porque, na verdade, podemos ser qualquer coisa, desde uma “estrela”, um líder com influência global, ou o que quer que seja. Nós podemos surpreender se nos derem a chance.

E se você estiver navegando nas mídias sociais enquanto inicia a leitura deste livro, é provável que você encontre algum conteúdo que fale sobre millennials. Eu mesma cheguei a encontrar vários questionários para descobrir “quão millennial eu sou”.

Mais frequentemente, o que acabamos descobrindo, é sobre o quanto somos fracassados porque ainda não comecamos a viver a “vida adulta”. Ou, o quão pouco tempo conseguimos manter um emprego. Ou, que tiramos uma selfie a cada sete minutos. Ou que tomamos um café por ser uma experiência, e não uma bebida. Você também descobrirá que estamos mais interessados em caminhar pela Grande Muralha da China do que em comprar uma casa.

Mas qual é o objetivo dessas “descobertas” que fazemos online? Apresentar-nos a novos estereótipos? E se eu não vejo nenhuma razão válida em julgar ou falar de forma depreciativa a respeito da nossa geração é porque eu entendo que isso não contribui com nada positivo à nossa sociedade.

Não estou dizendo apenas por mim, eu falo porque passo a minha vida coexistindo com outros millennials e eu não consigo enxergar todas estas falhas que as outras gerações vêem sobre nós.

Agora, veja que as críticas aos mais jovens eram repetidas por muito mais tempo do que podemos imaginar. Em 450 aC, uma citação comumente atribuída a Sócrates afirmava: “Os jovens amam o luxo; eles não têm bons modos e desprezam a autoridade; eles mostram desrespeito aos anciãos e conversam em vez de trabalhar”.

Interessante como as gerações passadas esqueceram quão dolorosas eram as acusações sobre elas mesmas. Da mesma forma, artigos de notícias atuais parecem enquadrar jovens millennials como uma ameaça. E, embora o ato de estabelecer estereótipos tenha sido o passatempo favorito da sociedade por décadas ou, melhor, por séculos, isso já perdeu a graça há muito tempo.

Então, vamos à pergunta que não quer calar:

“Qual é o nosso problema como geração?”

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Por que criar esteriótipos sobre certos tópicos é considerado tabu, mas está bem estereotipar uma geração inteira? Talvez não seja o nosso narcisismo ou a nossa preguiça que estejam expandindo o abismo entre as gerações nos dias de hoje. Talvez esse abismo esteja crescendo exatamente em razão de todos esses estereótipos.

Existem 1,3 bilhões de millennials no mundo. Cada um entre nós representa um indivíduo complexo, diverso e único. No entanto, muitos entre nós não conseguem entender isso, porque apenas desta forma seremos capazes de fazer as perguntas certas.

Alguns millennials irão reagir, como eu estou fazendo ao escrever este livro, outros não. Alguns receberão maiores doses de tecnologia em suas veias. Outros trabalharão duro. Alguns passarão seus fins de semana no sofá assistindo Netflix. Outros estarão dedicando-se a criação de uma família. Alguns adiarão o casamento, enquanto outros adiam o plano para as suas aposentadorias. E não importa o que você faça, é lógico que ninguém entre nós irá se comportar da mesma maneira em vários aspectos de nossas vidas.

Isso porque somos simplesmente muito diferentes, mesmo que sejamos da mesma geração. É justamente por isso que não podemos aceitar que estereótipos sejam tratados como fatos, porque, com o tempo, eles podem se tornar a realidade. Se, por exemplo, você acha que millennials são preguiçosos, então você vai olhar para si mesmo através desta lente. A sua percepção definirá a realidade. Você não procurará exemplos de indivíduos entre nós que trabalham duro porque isso seria contrário à sua “verdade”.

Se você já leu dezenas de artigos na internet sobre como somos ou deveríamos ser, não significa que estas sejam as verdades. E mesmo que você tenha algo entre 20 ou 30 e poucos anos de idade não significa que você sabe pelo que todos os jovens de 20 ou 30 estão passando nos dias de hoje.

Millennials, assim como todas as gerações, cresceram em uma ampla gama de circunstâncias e contextos específicos desta época da história em que vivemos. Nós estamos passando por uma luta de transição, incerteza, dúvida, depressão e frustração, já que a vida adulta não é nada como achamos que seria. E apenas porque você não quer reconhecer que a luta que experimentamos é legítima, não significa que essa luta não esteja acontecendo.

Então, como avançamos para além dos estereótipos?

Esta é uma questão complexa. E, na tentativa de respondê-la, precisamos parar de pronunciar as mesmas palavras que tentam definir o nosso problema. Precisamos parar de repetir os mesmos esteriótipos.

Agora, na minha humilde tentativa de incentivá-lo a refletir mais profundamente sobre isto, eu apresento aqui a minha opinião sobre os estereótipos mais comuns que a nossa geração enfrenta.

Vamos a eles.

“Millennials são egoístas e narcisistas”

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Foi o vaidoso Narciso – personagem da mitologia grega incapaz de amar outras pessoas e que morreu por se apaixonar pela própria imagem – que inspirou o termo narcisismo. No século 18, o mesmo conceito foi reinterpretado por Freud, o primeiro indivíduo que descreveu o narcisismo como uma patologia.

Eu estou falando de história para dar contexto ao fato de que o narcisismo parece se expandir como uma praga na sociedade contemporânea. Como nunca antes, há um aumento no número de narcisitas porque agora a imagem, muitas vezes, conta mais do que o que fazemos, além de que queremos ter sucesso sem esforço.

Mas, isso não acontece apenas entre millennials. Basta observar o consumismo, a autopromoção nas mídias sociais, a busca da fama a qualquer preço, ou as cirurgias na tentativa de frear o envelhecimento. Tudo isso é comum entre indivíduos de qualquer geração – sem serem, necessariamente, comportamentos narcisistas.

Talvez a razão pela qual millennials são o alvo do narcisismo é que usamos mais a internet do que as gerações passadas. E são nas mídias sociais o lugar onde os traços desta patologia são mais evidentes. Para ter uma ideia, todos os dias são publicados, apenas no Instagram, mais de 80.000.000 de fotografias, com mais de 3,5 bilhões de “curtidas”. Dentre as descrições destas imagens, lemos: “Eu, comendo”, “Eu, com minha melhor amiga”, “Eu em um novo bar”. “Eu, eu, eu…” No Facebook, não é nada diferente, milhões de usuários dão detalhes de suas vidas cotidianas ao mundo.

É claro que nem todos os que tiram selfies são narcisistas, mas as mídias sociais podem ter algum impacto na formação da nossa  personalidade. Quando se é narcisista, o ato de autorretratar-se também pode causar dependência e FOMO – a síndrome que se refere ao medo do vazio de uma postagem sem uma curtida sequer.

Agora reflita: a internet está nos convertendo em narcisistas ávidos pela notoriedade fácil? Se sim, como chegamos a esse ponto?

Diferentes teorias discutem o surgimento do narcisismo. E algumas entre elas chegam a culpar os nossos pais e educadores por terem criado uma geração de narcisistas, ao nos dizerem que somos especiais. Mas, visivelmente, esse é um argumento incompleto.

“Millennials não sabem trabalhar duro”

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Quando escuto gestores ou as outras gerações reclamando de que os jovens de 20 ou 30 e poucos anos de idade são preguiçosos, querem trabalhar pouco, ganhar muito e conquistar promoções rápido, a minha primeira reação é rir, de nervosa, é claro.

Ao escolher definir uma geração com base em uma pequena parcela dela, mais jovem e cheia de privilégios, os recrutadores estão marginalizando a maioria que não se encaixa neste perfil: aqueles que são descartados dos processos seletivos por não falar inglês, espanhol ou francês; por “viver muito longe”; por ser mais um Silva ou Santos; por não ser conhecido no seu mundo pequeno de renda mal distribuída; ou por não ter um título da universidade X.

Isso me faz pensar que o fundamento do esteriótipo que diz que millennials não querem trabalhar não surgiu no Brasil. Aqueles que, como eu, saíram de uma cidade pequena e até do país, foram capazes de fazer isso porque estavam dispostos a trabalhar duro.

Quem diz que não queremos trabalhar para alcançar o que desejamos não sabe que temos outro conceito sobre o trabalho. Para nós, é mais provável que não desejamos trabalhar de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, apenas enrolando chefes ou clientes. Nós entendemos como funciona o mercado e buscamos alternativas para trabalhar de forma mais inteligente, sem ter que trabalhar tanto.

Se não bastasse, queremos encontrar um significado para aquilo que fazemos diariamente, não porque acreditamos que vamos salvar o mundo – embora alguns realmente sejam capazes de fazer algo sobre isso – mas porque sabemos o quanto o trabalho acabou com a saúde dos nossos pais e avós, que, muitas vezes, contavam apenas com o falho plano de saúde do governo para se tratarem.

Crescer em uma realidade difícil, porém, não nos impediu de sonhar e de ir mais longe, de ter uma vida cheia de experiências, assim como fazem os millennials de outras classes sociais ou de nações desenvolvidas.

A nossa alternativa para conquistar tudo o que queremos está em vencer o esteriótipo de que deveríamos trabalhar duro como faziam as gerações passados. Em vez disso, devemos desenvolver novas habilidades de trabalho para hoje e para um futuro próximo.

“Millennials não possuem habilidades práticas”

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Eu tenho uma forte lembrança daz vezes que os meus professores lutavam para ligar um projetor de apresentação na sala de aula, até que um de meus colegas olhasse para o sistema por três segundos, antes de pressionar o botão “liga” no computador base.

Como millennials, naturalmente possuímos habilidades que as gerações passadas não possuíam. Somos multitarefa, conectados e estamos preparados para desenvolver novas habilidades com o uso da tecnologia. E mesmo para aqueles entre nós que não possuem nenhuma experiência no mercado de trabalho, porque passaram os últimos anos dedicando-se a cursos superiores, essa carência pode ser vista como um aspecto positivo em seu conjunto de habilidades.

O desafio dos gestores é olhar além do currículo tradicional e enxergar o valor das nossas experiências fora do ambiente de trabalho. Se alguém entre nós trocou a possibilidade de estagiar durante as férias por uma viagem para ajudar uma organização sem fins lucrativos, imagine quais foram as habilidades aperfeiçoadas neste processo: comunicação, resiliência, organização, atitude, aptidão para gerir projetos, apenas para citar algumas.

E como já estamos carecas de saber, fomos criados na era das informações e dos serviços em tempo eral. A inquietação gerada por “tudo aqui e agora” não é necessariamente ruim, como alguns poderiam pensar. Como resultado, não queremos perder tempo na fila do banco ou esperar por uma mesa em nosso restaurante favorito. E com essa mesma inquietação, somos mais aptos a encontrar formas de trabalhar com mais eficiência e rapidez.

Vale destacar também sobre o quanto a nossa geração é conectada. Estamos nas mídias sociais não apenas para falar com os nossos amigos, mas para nos engajar e construir relacionamentos. Eu vou além, dizendo que não estamos tentando separar o trabalho da nossa vida pessoal, pois sabemos que estes dois aspectos das nossas vidas podem ser gerenciados juntos, muitas vezes, desde os nossos telefones celulares, em qualquer lugar e a qualquer momento.

A mensagem é clara: temos em mãos as ferramentas para desenvolver e aplicar quaisquer que sejam as habilidades que o nosso trabalho exija hoje e no futuro.

“Millennials estão sempre distraídos na internet”

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Dê uma olhada no número de dispositivos à sua frente em um dia típico: você tem o seu computador, um telefone celular e outro de mesa e, talvez, até um tablet ou dois. Agora pense em quantas vezes por dia você alterna a sua atenção entre cada um desses dispositivos para verificar mensagens, visualizar e-mails ou fazer chamadas.

Óbvio que eu não poderia dizer que não estamos distraídos com os nossos dispositivos eletrônicos, mais do que as gerações passadas, mas deve ser considerado que as antigas gerações não possuíam toda a tecnologia que temos hoje. Antigamente, não devia ser tão divertido usar um telefone e ninguém conseguiria se conectar com outros indivíduos em (virtualmente) qualquer lugar do mundo.

Além disso, temos uma compreensão tamanha sobre a tecnologia e sobre como usá-la para a nossa vantagem, algo que nenhuma geração possuía no passado. Pense neste exemplo prático: Se o seu chefe quer informações sobre o status econômico de determinado país, você pode fazer isso em questão de segundos.

Mas enquanto possuímos uma abundância de dispositivos e recursos que competem pela nossa atenção, concentrar-nos em um assunto ou atividade pode ser mais difícil quando recebemos dezenas de mensagens de texto e as luzes de nossos smarphones não param de piscar, ou o mesmo aplicativo vibra constantemente a cada novo alerta de e-mail. Então, vamos admitir que até certo ponto a distração causada pela tecnologia e a internet pode ser prejudicial.

No entanto, um estudo descobriu que enquanto millennials estão mais distraídos na internet, indivíduos das gerações anteriores também se afastam de seu objetivo principal enquanto esperam uma página ser aberta ou que os seus computadores sejam reinicializados.

Ao meu ver, em um nível pessoal, todos devemos fazer um esforço para reduzir o uso de dispositivos eletrônicos pessoais durante o horário de trabalho, de modo que apenas os dispositivos mais necessários estejam à nossa frente.

Eu disse todos, de todas as gerações.

Em outras palavras, todos precisamos gastar menos tempo fazendo malabarismos entre diferentes tarefas, com os dispositivos em mãos, e dedicar mais tempo para o que realmente importa.

“Millennials são fúteis e materialistas”

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Provavelmente o esteriótipo mais injusto sobre a nossa geração é que somos todos materialistas. Aparentemente, nos importamos demais com a nossa imagem e fama. Até mesmo o movimento de contracultura – pense em “hipsters” – é acusado de ser consumista.

Claro, estes são exemplos de estereótipos extremos, porque somos mais interessados ​​em experiências do que em comprar coisas. Setenta e oito por cento dos millennials escolheriam gastar dinheiro em uma experiência (como um feriado, um show ou um evento), em vez de comprar um item material – é o que diz uma pesquisa.

Viagens, em particular, são extremamente valorizadas por millennials. Pense naqueles que viajam, enquanto somam seguidores para os seus blogs e mídias sociais. Isso sugere que apreciamos mais a criação de memórias, a experimentação de um nova cultura, ou o tempo com pessoas queridas em vez de adquirir coisas.

Pode-se até dizer que limitar o número de posses é um novo símbolo de luxo para a nossa geração. Millennials extremamente ricos – o tipo de pessoa para quem o dinheiro não é uma barreira – também estão rejeitando bens e o estilo de vida consumista.

O crescimento da economia compartilhada é um exemplo desse interesse decrescente na propriedade de bens. A nossa geração se orgulha em compartilhar algo para uso em curto prazo. Estou falando de alternativas de transporte, como Uber, ou alojamentos mais acessíveis e práticos, como os oferecidos pelo Airbnb.

Há mesmo aqueles que são adeptos ao minimalismo porque o consumismo está falhando em fazê-los felizes. Estes indivíduos entendem que os hábitos de compras são impulsionados por alguma insatisfação, mas que ninguém é capaz de comprar a liberdade assim.

Há também um senso de romantismo em torno da simplicidade. Para muitos entre nós, o que chamamos de estilo de vida “autossustentável” nos faz suspirar.

As casas construídas manualmente, são um dos exemplos de substitutos para os marcadores do estilo de vida tradicional – ou  seja, uma casa grande com piscina, ou alguns carros do ano. Estar na natureza é visto de forma especialmente romântica, talvez em resposta ao fato de que as nossas vidas se passam em áreas urbanas.

O idealismo sonhador e “hipster” que leva as pessoas a valorizarem a autenticidade, a singularidade, a exploração e a viagem é fácil de ser seguido, até porque o mesmo sugere um grupo de pessoas que desejam uma vida mais significativa.

Maior praticidade também nos distancia do materialismo que muitos de nossos pais experimentaram no passado. Os preços das casas em muitos países dispararam – e, infelizmente, são o tipo de local onde você provavelmente terá que ir trabalhar. Talvez por isso já estamos sendo conhecidos como a “geracão do aluguel”, e a natureza transitória de alugar nossas casas pode significar que estamos menos inclinados a preenchê-las com coisas.

Se não bastasse, para aqueles entre nós que foram “privilegiados” por uma boa educação formal”, a dívida estudantil cae sobre os nossos ombros, enquanto o trabalho parece cada vez menos confiável e inseguro. Tendo isto em mente, não é de se admirar que preferimos tirar proveito do aumento da liberdade pessoal que não está vinculado às representações materiais.

Exemplo disto são as nossas viagens. Viajar representa uma insatisfação com a nossa realidade. E muitos entre nós aproveitam a oportunidade para trabalhar remotamente enquanto “exploram” o mundo. Tudo se remete a uma apreciação das experiências e a uma forma de viver uma vida mais significativa por meio da criação e da captura de memórias, ao invés de gastar tudo em compras.

Embora não possamos ter o espírito revolucionário dos jovens dos anos 60 ou a atitude “punk”, popular em torno dos anos 80, é importante lembrar que nossa rejeição ao materialismo convencional foi transformada junto com a nossa realidade, na qual embarcamos a uma velocidade sem precedentes.

Com isto em mente, também estamos preocupados com a sustentabilidade do Planeta, da mesma forma que qualquer geração deveria estar. Sempre que possível, buscamos fazer a compra mais ética, gastando mais em opções sustentáveis ​​e querendo algo real, feito por um humano real, de uma maneira autêntica.

Lógico, queremos menos objetos e visamos garantir que a maior parte do nosso dinheiro seja gasto enquanto dedicamos mais tempo às pessoas que amamos e a experiências. E isso nos leva a desmantelar os estereótipos apresentados a seguir.

“Millennials não sabem lidar com o dinheiro”

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Juros compostos ou estratégias de economizar e investir deveriam ter sido ensinados muito antes, porque, se você tivesse começado cedo, poderia se tornar multi-milionário na idade que os indivíduos das gerações anteriores têm hoje.

Ah, eles ainda não são multi-milionários?

Então, deveriam se dedicar a outra ocupação que não seja a de dizer que não sabemos como lidar com o nosso dinheiro.

Sério, os juros compostos funcionam. Mas como você nem sequer ouviu falar sobre isso aos 13 anos de idade?

De fato, quando se trata de obter conhecimento financeiro, tudo parece muito confuso. Eu já ouvi muitos amigos dizendo não têm ninguém próximo para recorrer a uma orientação financeira. Então, eles buscam conselhos online sobre questões como comprar uma casa ou obter um empréstimo para começar um negócio.

Mas, veja bem, hipoteticamente, se existissem extraterrestres capazes de olhar para a vida na Terra no século 21, é bem provável que eles acreditem que os nossos dispositivos eletrônicos são essenciais para a noss vida. E enquanto o nosso telefone está sempre conosco, essa inclinação móvel se estende aos nossos hábitos financeiros também, quando preferimos realizar pagamentos ou outras transações bancárias por meio deles. Afinal, quem é que precisa ir ao banco para pagar as contas hoje em dia?

Embora millennials como eu ou você possam definir o seu status de relacionamento com o dinheiro como “complicado”, parece que temos as prioridades em ordem quando se trata de finanças. Essas prioridades são o pagamento das nossas dívidas e a economia para o futuro, mesmo se começamos relativamente tarde. Na verdade, tantos estudos já concluíram isso: nós chegamos a definir o sucesso financeiro como estar livre de dívidas, ao invés de nos casar ou de comprar uma casa. E tudo isso faz muito sentido.

Você provavelmente não quer começar uma família com toda aquela dívida acumulada em seus de cartão de crédito. Você nem pode dormir sabendo que precisa pagar o financiamento da sua universidade, do seu novo apartamento, ou do seu automóvel.

E isso nos leva a entender a razão pelo seguinte esteriótipo.

“Millennials não sabem construir relacionamentos”

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Esta é outra situação na qual você não pode ver toda uma geração através das mesmas lentes, porque certamente há muitos millennials em relacionamentos de longo prazo, construindo suas famílias, ou investindo em relações profissionais e amizades que se mantêm ao longo da vida.

Claro que muitos entre nós adiam este tipo de compromisso a favor de embarcar em outras experiências (e por causa da dívida). Pensando bem, é verdade. Os seus pais provavelmente casaram ​​e tiveram filhos antes dos 30 anos de idade. Hoje, quem pensa em ter filhos já está nos 30. E, não faltam razões para isso.

Primeiro, millennials como eu ou você estamos dedicando mais tempo de nossas vidas à educação superior. Passamos de três a cinco anos estudando na universidade. Então, se fizermos um mestrado, se vão aí mais alguns anos. Também é mais comum agora cursar um doutorado, o que significam uma média de três a seis anos a mais dedicados à pesquisa e à escrita de uma tese. Depois disso, chegamos aos 30 anos de idade e nos perguntam por que ainda não temos um trabalho estável e nem estamos ganhando uma fortuna.

Aqueles entre nós que se dedicam às suas carreiras muito antes em suas vidas também acabam adiando a contrução de uma família. Para estes indivíduos, sejam homens ou mulheres, o tempo depois da universidade é dedicado ao trabalho e a ganhar dinheiro.

Claramente, a velha história de casar, comprar casa e ter filhos não é tão comum hoje quanto era no passado. É difícil fazer tudo isso e viver felizes para sempre. Mas, é difícil porque somos millennials e não trabalhamos duro, ou porque somos preguiçosos?

Não, como você acaba de ver, não tem nada a ver com isso.

A verdade é que sabemos o que leva para construir e manter relacionamentos: tempo, dedicação, zelo, trabalho duro etc. Mas, enquanto ainda há tempo, muitos de nós preferem adiar estes compromissos em prol de outras prioridades e de tudo o que ainda precisa ser feito para chegar “lá”.

Ao mesmo tempo, estamos nos dedicando para fortalecer os relacionamentos profissionais, que também podem ser uma forma de apoiar na realização dos nossos maiores objetivos na vida.

“Millennials não possuem um sistema de crenças”

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Se estamos adiando ou simplesmente abandonando decisões como a formação de uma família e a compra de uma casa não quer dizer que deixamos de acreditar. Ao contrário. Temos fortes crenças, embora essas não sejam as mesmas crenças dos nossos pais.

Acreditamos na evolução da tecnologia, em “largar tudo para viajar” e em influenciar outras pessoas por meio das mídias sociais, o nos leva a entender que não estamos dispostos a prolongar conflitos relacionados ao casamento gay ou à imigração, e estamos mais dispostos a apoiar a igualdade racial e de gênero. Isso tudo se baseia em nossas crenças, que não são necessariamente religiosas.

De modo geral, millennials não baseiam suas crenças em uma religião. Estudos mostram que somos menos propensos a rezar diariamente, a frequentar regularmente espaços religiosos, ou a descrever o nosso compromisso religioso como “forte”.

E enquanto a crença das gerações anteriores permaneceu constante ao longo das nossas vidas, nós nos tornamos menos religiosos à medida que envelhecemos.

A questão é, por que isso acontece?

E a resposta parece contudente: a credibilidade religiosa vem diminuindo há décadas, ainda assim é improvável que qualquer geração seja inteiramente responsável por isso. Até porque, mesmo entre os millennials, os ateus não são a maioria. Logo, a diminuição da crença religiosa parece ser um processo cultural, possivelmente tendo a ver com maiores níveis de educação.

Eu acho difícil evitar a conclusão de que millennials ateus estão acelerando esse processo. Não é que centenas de milhões de millennials estão lendo livros como o “The God Delusion”, mas a influência de um livro, ou uma página web, se estende para além das pessoas que estão familiarizadas com isso. Então, aqueles que estão convencidos de serem ateus podem começar uma mudança cultural que se espalha para seus pares, tornando o ateísmo uma nova visão de mundo, o que passa a ser uma opção para acreditar.

E se continuarmos a progredir nesta linha, quem sabe o quanto menos religiosa será a próxima geração? Ou, melhor: como serão os nossos sistemas de crenças?

“Millennials não sabem estabelecer objetivos reais”

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Estamos cansados de ouvir mais dos mesmos objetivos tradicionais, sobre “construir uma família”, “comprar uma casa”, “obter um título acadêmico da universidade X”, ou de “ficar rico”. Enquanto os mesmso objetivos possam ser válidos para alguns, para a maioria entre nós tudo isso não passa de um papo furado.

Vemos que existem tantas maneiras de sermos felizes, e que nem todos estão destinados a tornarem-se pais, ou sentarem-se nas salas de aula ou um cubículo em um escritório gigante.

Vamos apenas retomar ao aspecto financeiro das nossas vidas para ter uma ideia. Para nós, é mais provável que o dinheiro seja o meio, em vez do fim. Na realidade, estamos mais esclarecidos do que nunca de que o dinheiro nos dá apenas uma ideia parcial do que significa a felicidade e o sucesso.

Reconhecemos que liberdade financeira vale a pena, mas nem por isso estamos dispostos a trabalhar até os 65 anos para finalmente sentir que chegamos “lá”. Para muitos entre nós, “chegar lá” não equivale a um carro de luxo ou uma mansão.

O sucesso na realização dos nossos objetivos, ou chegar “lá”, é mais provável de ser definido pela amostragem de uma vasta gama de experiências de vida que poderíamos usufruir – incluindo cultura, viagens, inovação, sustentabilidade e ajuda social.

Estou falando de tudo isto com base no questionamento a millennials sobre o que eles realmente querem realizar em suas vidas. E não é nenhuma surpresa que a maioria das respostas tinha alguma relação com viajar pelo mundo e conhecer outras culturas. Além de viajar, desejamos ser aprendizes ao longo da vida, com interesses que vão além das habilidades práticas para realizar um bom trabalho.

De fato, estamos redefinindo o que significa ter uma vida bem-sucedida. Tudo isto tem mais a ver com a construção de hábitos do que com o estabelecimento de objetivos em si.

E quando se trata de objetivos somos mais propensos a dizer que aspiramos “ajudar pessoas em dificuldade” e “influenciar os valores sociais”. Em última instância, buscamos deixar a nossa marca no mundo e trabalhar continuamente para melhorar a própria autoestima e a das pessoas que nos rodeiam.

O que precisamos para seguir à diante

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Ótimo. Agora deve estar mais claro para você o que dizem a respeito da nossa geração. E embora alguns dos esperiótipos descritos nas sessões anteriores sejam verdadeiros para alguns, eles claramente não se aplicam para todos.

Há muitos entre nós que limitam o uso das tecnologias. Muitos trabalham duro para chegar à liberdade financeira um dia, ou para realizar qualquer outro objetivo. Muitos se dedicam à construção de suas famílias, e são bons em manter relacionamentos em todas as áreas da vida. Muitos contribuem com os menos afortunados.

Outros não se dão ao luxo de viajar pelo mundo porque têm medo de arriscar, o que não os impede de manter um sistema de crenças e expectativas sobre seus futuros. Alguns estudam política para tomar decisões mais bem informadas.

Outros buscam preservar o ambiente que nos foi dado. Podemos ter objetivos e crenças distintas. Alguns têm bebês, outros têm animais de estimação, mas comemoramos cada etapa em nossas mídias sociais. E no final, sabemos que nossas vidas não são definidas pelo status de relacionamento, mas por quem somos.

E não somos uma “geração perdida”, apenas porque somos diferentes. Não precisamos ser o que o mundo diz que somos, porque sempre existirão indivíduos que dirão que os jovens destroem tudo. Em alguns casos, eles estão certos e em outros não.

É por isso que devemos abandonar os estereótipos. Porque não precisamos baixar as nossas expectativas apenas pelo simples fato de sermos rotulados como outra “geração perdida”. Há ódio suficiente no mundo, e não precisamos alimentar esse sentimento.

Eu vou me levantar agora e seguir vivendo da melhor maneira que eu puder, com a ajuda e incentivo daqueles que me rodeiam. Eu vou fazer isso porque acredito em mim mesma. O que importa é que eu continue avançando, amando aqueles que precisam de amor e acreditando que eu posso fazer a diferença no mundo, mesmo que apenas na minha pequena esfera de influência.

Todos nós podemos fazer o mesmo, apenas precisamos trocar as nossas lentes sobre os estereótipos e avançar.

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