Aprendizado Trabalho

Por que trabalhamos tanto?

Quando criança, eu sempre observava a quantidade de horas que os meus pais trabalhavam. A maneira que eles realizavam os seus afazeres coma  cabeça erguida e como eles pareciam com um retrato heróico de sofrimento pessoal. Pobre dos meus pais, eu pensava! Quantas horas eles deixavam de descansar no sofá, ler ou assistir futebol.

Aos 26 anos de idade, eu vejo a velha rotina dos meus pais com olhos diferentes.

Eu me levanto às 5h30, preparo o café da manhã e logo levo a minha filha na creche, antes de começar o meu trabalho. Como eu faço isso desde a minha casa, eu tenho tempo para almoçar e jantar com a minha família. Depois disto, eu posso fazer um pouco mais: escrever ou ler, o que também faz parte do meu trabalho. 

Eu trabalho duro, obstinadamente. A ironia é que agora eu vejo como tudo isso é divertido.

Nem todo trabalho, é claro. O trabalho dos meus pais na roça, ou os empregos que muitas pessoas ainda realizam hoje, são, muitas vezes, desgastantes e ingratos.

Mas o meu trabalho, ou o daqueles profissionais que fazem o que amam e são bem remunerados por isso, pode realmente ser divertido. Talvez por isso dedicamos quantidades surpreendentes do nosso tempo trabalhando.

O que é menos claro para mim e para muitos dos meus pares é o por que abrimos mão de outras atividades em prol do trabalho. Uma resposta poderia ser que os profissionais que ganham muito dinheiro por seus esforços estão dispostos a fazer essa troca.

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Veja que quase um terço dos profissionais com formação universitária trabalha mais de 50 horas por semana. Os advogados de elite chegam a trabalhar 70 horas, em quase todas as semanas do ano.

O trabalho, neste contexto, raramente pára. Ele nos segue em nossos smartphones, solicitando a nossa atenção durante a noite ou enquanto estamos com a nossa família. Ele faz uso do nosso valioso espaço cognitivo, e escolhe horas estranhas para passar pelos nossos pensamentos. Ele coloniza nossos relacionamentos pessoais e os usa para seus próprios fins. Por fim, ele se torna a nossa vida se não tivermos cuidado.

Não era óbvio que as coisas acabariam assim. Você pode ter pensado antes que um profissional do sexo masculino trabalharia 50 horas por semana, enquanto a sua esposa ficaria em casa com as crianças.

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Eles poderiam compartilhar as tarefas domésticas e acabar com mais dinheiro e lazer. Mas isso não aconteceu. Em vez disso, ambos são mais propensos a trabalhar 60 horas por semana e pagar várias pessoas para cuidar da casa e das crianças.

Por que?

Uma possibilidade é que o número de empresas multinacionais, ou de startups de tecnologia que dominam um nicho de mercado, é limitado. Garantir um lugar com boa remuneração em uma empresa assim e permanecer nela é uma questão de competição.

Essa competição implacável aumenta a necessidade de ganhar salários altos, pois as pessoas bem remuneradas oferecem o preço dos recursos para os quais elas competem.

Além disto, as grandes cidades, onde a maioria desses profissionais competitivos vive, requerem uma renda que só pode ser construída através de longas horas em um trabalho bem pago.

Em seguida, surge a “necessidade” de ter um carro de grande aparência e uma casa que mais se parece uma revista de decoração. Depois vem a competição para colocar as crianças em escolas boas (isto é, privadas), a necessidade de manter um grupo de empregados domésticos ( uma babá, um cozinheiro, um chofer…) e assim por diante.

O dinheiro e as horas no trabalho se somam enquanto apontamos para uma vida boa que sempre fica mais longe do nosso alcance. Em momentos de exaustão, imaginamos vidas mais simples em cidades menores, com mais horas livres para familiares e para nós mesmos.

Mas essa é apenas parte da resposta pela qual trabalhamos tanto.

Acontece que também almejamos maior interação social e as nossas redes sociais são compostas não só por familiares, vizinhos e amigos, mas também por clientes e colegas.

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Este mundo entrelaçado do trabalho e da vida social nos enriquece e nos expõe a pessoas que fazem coisas fascinantes, mantendo-nos informados de temas profissionais e ajudando aqueles que têm boas ideias a transformá-las em realidade.

Esta mistura do aspecto social e profissional em nossas vidas não é nova. Também não é diferente dos filmes de Hollywood, onde os amigos se tornam colaboradores, os atores se casam com diretores e um evento noturno serve para fortalecer a marca de uma estrela.

No entanto, existe um valor psíquico e econômico para o entrelaçamento da vida e do trabalho. Ter pessoas como nós ao nosso lado reforça a nossa crença no que fazemos. Trabalhar efetivamente em um bom emprego fortalece a nossa identidade e autoestima, além da estima nos olhos dos outros.

Nós nos animamos mutuamente, compartilhamos os sucessos de nossos colegas de trabalho e aos poucos vamos perdendo contato com pessoas além dessa rede. Essa é apenas uma das implicações de manter uma vida dentro de uma comunidade profissional.

A mesma rede limitada faz das nossas falhas ou erros uma experiência mais difícil e humilhante. A vida social deixa de ser um refúgio contra as indignidades do trabalho. A sinceridade dos relacionamentos torna-se questionável quando as pessoas são amigas apenas por conveniência. Esse é um ponto que deveria ser pensado, já que nada disso nos impede de seguir trabalhando tanto.

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Agora que os meus pais já estão aposentados, eu terei mais tempo para ouvir deles quais são as suas novas perspectivas em relação ao trabalho. Eu sinto que eles querem ver partes do mundo que não podiam quando eram jovens porque não tinham dinheiro, ou quando eram adultos mais velhos e não tinham tempo.

Como os meus pais fizeram, eu estou aprendendo a me desligar do meu trabalho, mesmo que seja apenas de tempos em tempos. A minha escolha profissional mais independente me permite isto.

Mas, se construir a minha carreira é tornar-me indispensável, demonstrar indispensabilidade significa enterrar-me no trabalho, e o resultado de demonstrar isso gera uma maior necessidade de continuar trabalhando incansavelmente.

Por fim, eu começo a entender a natureza do problema. E a minha resposta para o por que trabalhamos tanto está em um contexto onde passamos a fazer aquilo que nos agrada. 

Quando alguém me pergunta sobre o meu trabalho, eu falo sobre identidade, comunidade, propósito, o que me fornece significado e motivação. Eu não trabalho por nada além da minha crença de que essa é uma escolha para a vida.

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