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Como é ter pais que não foram privilegiados com uma educação formal

Nenhum dos meus pais concluiu o ensino médio, embora a minha mãe tivesse sido uma das melhores alunas da classe durante os três anos de educação formal que ela teve na vida. Ela adorava as aulas de português, mesmo que o seu idioma nativo fosse o alemão. O meu pai não se dedicava tanto, e nem poderia, mas ele também era um aluno destaque, especialmente para resolver problemas matemáticos.

Os dois tiveram que abandonar a escola por volta dos 10 anos de idade para ajudar os meus avós nas atividades da roça.

Eu acredito que os meus pais não tiveram muita oportunidade para ler em casa. Não haviam livrarias na vilamais próxima e a biblioteca da escola local tinha poucos exemplares para empréstimo.

Quando eu era criança, a única leitura que eu via os meus pais fazendo era a dos receituários médicos, do almanaque que traziam da farmácia quando iam para a cidade e dos jornais em alemão que eles traziam da igreja. Como meu pai sempre foi religioso, ele também lia a Bíblia. Aliás, foi com a Bíblia que o meu pai me ensinou a a ler aos quatro anos de idade, antes mesmo do meu primeiro dia na escola.

A falta de educação teve repercussão na vida dos meus pais

Naturalmente, eles jamais conseguiriam um trabalho formal que exigisse um diploma.

Os meus pais continuaram a trabalhar juntos na roça por algumas décadas, até que decidiram tomar rumos diferentes na vida. Eles se divorciaram depois de terem criado seis filhos juntos em seus 26 anos de casados.

O meu pai se mudou para a cidade de Joinville, onde retomou o ensino fundamental e chegou a concluir a sexta série (do ensino médio).

A minha mãe não continuou nenhum tipo de educação formal, mas ela sempre demonstrou interesse em ajudar a cada um dos seus seis filhos nas tarefas da escola. Idiomas era o tema favorito dela.

Enquanto vivia na cidade, o meu pai passou a trabalhar em diferentes serviços que exigiam pouco ou quase nenhuma educação formal. Ele foi ajudante de pedreiro, pintor, jardineiro e hoje trabalha em uma marcenaria.

Neste mesmo tempo, a minha mãe também decidiu mudar-se para a cidade e chegou a participar de algumas entrevistas para trabalhar em restaurantes, onde ela poderia aplicar os seus “dotes” culinários.

Enquanto o meu pai chegou a ter sua carteira de trabalho “assinada”, a minha mãe nunca teve outra função registrada no mesmo documento, além de ser “dona de casa”.

Os meus pais reconheciam o valor da educação formal

Embora os dois não tiveram oportunidade de passar a infância frequentando a escola, a minha mãe insistia para que todos os filhos dela concluíssem, pelo menos, o ensino médio.

O meu pai reconhecia que a educação era importante, mas ele acreditava que os seus filhos deviam passar o menor tempo possível na escola, já que, depois disso, dedicaríamos a vida no trabalho da lavoura.

Especialmente, as filhas mulheres. Eu e minhas irmãs devíamos dedicar ainda mais do nosso tempo para as tarefas do campo e do lar. Mais importante do que estudar ciências, ou estudos sociais, devíamos saber cozinhar, lavar e passar muito bem. Só então teríamos alguma esperança para um futuro melhor (porque assim encontraríamos um “bom marido”).

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Nenhum dos meus irmãos reprovou em nenhum ano letivo, e se viéssemos para casa com nota abaixo da média recebíamos uma bronca. As notas baixas aconteciam quando não estudávamos o suficiente porque nos sentíamos sobrecarregados ajudando nas tarefas da roça e de casa.

Assim, aprendemos que cada minuto que nos restava para estudar a cada dia era muito valioso e não devia ser desperdiçado.

Esse foi um dos maiores aprendizados que eu e meus irmãos tivemos dos nossos pais.

Eles trabalharam para dar um exemplo para seus filhos

Os meus pais começavam o trabalho do dia antes do sol raiar e retornavam da lavoura quando já havia anoitecido, quando eles ainda teriam uma série de outras tarefas para serem feitas antes de finalmente descansar.

A minha mãe teria que preparar o jantar e atender à demandas de cada um dos filhos no final do dia. Ela também era a melhor gestora de finanças pessoais que eu conheci, e, se eu aprendi a viver com pouco dinheiro desde muito cedo, foi por causa dos ensinamentos dela.

Mesmo sem educação formal em suas bagagens, os meus pais souberam transmitir seus valores para mim e meus irmãos. Em contrapartida, cada um dos meus irmãos soube aproveitar muito bem estes ensinamentos. Enquanto isso, nenhum de nós teve apoio financeiro de nossos pais ou de bolsas de estudos para seguir a nossa própria formação acadêmica.

Quando cheguei a ingressar no ensino superior, eu sempre pensava na história de vida dos meus pais e me sentia privilegiada pela oportunidade de estudar formalmente. Logo depois da universidade, conclui uma pós graduação. Vejo que isso deve ser uma fonte de orgulho para os meus pais, enquanto acreditam que os ensinamentos deles serviram para algo.

A falta de educação pode fechar portas, mas não todas

Provavelmente, hoje os meus pais já não tenham interesse em retomar à escola ou ingressar na universidade, mas eles continuam sendo bons pais para mim e meus irmãos.

Meu pai com aquele estilo autoritário me ensinou muito sobre disciplina. A minha mãe se doava todos os dias para que pudéssemos ser “melhores” do que eles foram um dia. E quando os meus amigos me questionam sobre a área acadêmica e profissional dos meus pais, eu digo a eles que os meus pais não puderam se dar ao luxo de continuar na escola. Ambos tiveram que trabalhar desde muito cedo. E quando eles se tornaram pais, embora não puderam conceder o privilégio de enviar os seus filhos para as melhores universidades, eles souberam apoiar.

Ter pais que não tiveram as mesmas oportunidades, não significa que não podemos ir mais longe. Mais do que nunca, eu estou convencida de que ambos os meus pais são exemplares para mim.

Como você percebe o impacto da falta de educação formal em seus próprios pais (se esse for o caso)? Comente logo abaixo!

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