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Crescer na roça — quais aspectos influenciaram mais sobre quem eu me tornei

Passar a infância no campo pode ser uma das experiências mais desejadas e admiradas pela sociedade urbana. A verdade é que crescer na roça pode moldar a mentalidade de um indivíduo e influenciar profundamente quem ele se torna na vida adulta. É exatamente isso o que aconteceu comigo, depois de ter passado os 13 anos mais formativos da minha vida em uma pequena àrea rural no Oeste do estado do Paraná, no Sul do Brasil.

Enquanto eu desfrutava das minhas manhãs com os meus poucos e bons amigos na escola, e as minhas tardes construindo casinhas de bonecas com materiais da natureza, ou coletando frutas da estação nas árvores, nem tudo era diversão. Desde muito jovem, eu sentia o peso das minhas responsabilidades a cada vez que devia ajudar a tirar o leite das vacas, carregar a lenha para acender o fogão da cozinha ou ajudar a minha mãe a terminar o almoço.

Assim como quem cresce em uma grande cidade poderia considerar diferentes aspectos sobre essa experiência, eu posso apontar o que considero mais relevante a respeito de crescer na roça sobre a formação de quem eu me tornei.

Vamos a estes aspectos.

1. A dificuldade de explicar de onde venho

Eu sei que ao dizer que venho de uma pequena cidade no oeste do estado do Paraná, isso não significa muito para a maioria das pessoas que me perguntam sobre qual é a minha cidade Natal.

Quando alguém me pergunta isso, eu tenho que dizer que nasci perto de Foz do Iguaçú — a cidade das cataratas, divisa com Argentina e Uruguai — o que não é exatamente preciso, e isso me frustra de vez em quando.

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2. O fato de todos se conhecerem

No meu caminho de casa para a escola, algo que tomaria algo em torno de dois quilômetros, eu provavelmente encontraria meia dúzia de pessoas, entre adultos e crianças. Os meus pais conheceriam todas essas pessoas pelo nome, sobrenome e até teriam a data de aniversário de cada uma delas na ponta da língua. No mínimo, eu teria que dizer “bom dia, tudo bem?!”

Viver na roça é como viver com uma grande família. Pode ser reconfortante saber que todos sabem quem eu sou, especialmente se eu necessitasse de ajuda para qualquer coisa.

Ao mesmo tempo, pode ser incômodo saber que todos saberiam exatamente o que se passava comigo e com a minha família.

3. A diversão que eram as brincadeiras 

Para mim, raramente faltava companhia para uma boa brincadeira — sou a caçula dos seis filhos dos meus pais e apenas mais uma para a lista de mais de 20 netos dos meus avós. Eu ainda poderia convidar as minhas melhores amigas da escola para dormir na minha casa e teríamos uma tarde toda para explorar diferentes possibilidades de brincadeiras.

Photo by Jake Gard on Unsplash

Se o dia estava quente demais, tomaríamos banho no rio ou faríamos uma caminhada explorativa pela floresta. Se estivesse frio, construiríamos casas de bonecas com pedaços de lenha. Se chovesse, era banho de chuva na certa!

4. A realidade de estar em turmas menores

As minhas turmas no ensino fundamental não passavam de dez alunos. Sério, dez crianças no total!

Para responder ao argumento sobre a falta de diversidade em uma pequena classe, eu vejo que existe uma vantagem nisso: os professores realmente poderiam se dedicar para que cada aluno pudesse desenvolver o seu potencial.

5. A oportunidade que os invernos traziam

Ainda que fosse frio sair de debaixo dos cobertores às 6:00 da manhã em uma casa de madeira sem aquecimento elétrico para caminhar até a escola, muitas vezes debaixo de chuva, eu realmente não podia reclamar dos invernos.

Quando eu chegaria em casa para o almoço, o fogão à lenha estaria acesso, fazendo com que a casa se mantivesse aquecida durante toda a tarde.

As geadas que maltratavam as plantações eram realmente algo que entristecia aos meus pais. E, por mais que eu sinta dizer isso, os dias mais frios eram os melhores para mim — porque meus pais ficariam em casa em vez de ir para a lavoura. O que isso significava?

Era quando a minha mãe prepararia uma fornada de cucas, rosquinhas e pães. Alguns vizinhos eventualmente chegavam para desfrutar com toda a família de um delicioso café no fim da tarde.

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6. A falta que a internet não fazia

Pode parecer contraintuitivo dizer isso, considerando que eu sou da geração que cresceu com um smartphone em mãos. Eu passei toda a minha infância sem ter qualquer tipo de telefone em minha casa. Internet então? Nem nos meus sonhos!

Se eu for um pouco mais além, os meus irmãos mais velhos cresceram antes de meus pais terem comprado a primeira televisão, o que aconteceu apenas depois que chegou a eletricidade — fornecida pelo vizinho que produzia energia elétrica com uma roda d’água.

Com tantas formas para conectar-se pessoalmente com todos ao redor e com tantas atividades para serem feitas em meio à natureza, quem poderia necessitar de internet, afinal?

7. A simplicidade que a vida pode ter

Esse aspecto pode ser bastante óbvio quando se trata de descrever a vida rural.

Photo by Gabby Orcutt on Unsplash

Eu poderia passar uma estação inteira com apenas duas bermudas e duas camisetas no meu roupeiro, se fosse época de sol para secá-las a tempo antes de usar outra vez. Comprar roupas novas aconteceria apenas uma vez ao ano, para vestir a família para o culto na noite de Natal.

Os meus pais poderiam trabalhar duro nas atividades da lavoura pela manhã e teriam algum tempo para fazer uma sesta depois do almoço. Eles não precisavam se preocupar em seguir nenhuma lista de tarefas, desde que os animais fossem alimentados, a lavoura estivesse limpa e irrigada, e tivéssemos comida na mesa.

8. A nostalgia sobre viver no campo

Por mais que eu pudesse ter razões para reclamar de uma ou outra coisa sobre viver na roça enquanto eu ainda era criança, eu percebo que a vida adulta me trouxe nostalgia sobre o modo de vida que eu levava.

Aspectos tão triviais, como ver que os meus pais não se preocupavam com chefes ou que eu não dependia da internet para me sentir conectada, podem ter se tornado uma das maiores causas para as minhas constantes reflexões sobre o por que eu desfrutava tanto da vida no campo.

Como você acredita que o entorno da sua infância contribuiu para torná-lo quem você é hoje? Compartilhe as suas experiências nos comentários abaixo.

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