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O que eu aprendi convivendo com a depressão na minha infância

Quando eu tinha apenas sete anos de idade, a minha mãe me disse que ela estaria pronta para nos deixar assim que eu — a filha caçula — completasse 18 anos. Ao pronunciar essas palavras, ela sofria os efeitos de uma série de complicações cirúrgicas e tinha pouco ou quase nenhum apoio do meu pai. Eu sentia o desejo dela em me proteger, ainda que ela mesma tivesse poucas esperanças sobre a sua própria vida.

A partir daquele dia em que eu ouvi as aterrorizadoras premonições da minha mãe, eu passei a estudar mais profundamente o rosto dela e reconheci que algo estava errado. Ela raramente sorria.

Isso me deixava amedrontada, até que eu resolvi perguntar o por quê. Então, ela me deu os ombros e essa foi a minha primeira lembrança clara de pressentir o que mais tarde descobri que poderia ser depressão.

Essa doença mental, no entanto, não era bem pronunciada

Ainda depois do seu divórcio com o meu pai, a minha mãe continuava realizando o seu árduo trabalho no campo. Ela se levantava para ordenhar as vacas antes que eu saísse para a escola e trazia o leite para o nosso café da manhã em família. No entanto, raramente conversávamos e eu sabia que algo não ia bem.

A primeira vez que eu percebi o quão diferente a minha mãe era das outras mães foi quando eu fui visitar a minha melhor amiga e a mãe dela nos questionou sobre o que queríamos fazer naquela tarde. A minha própria mãe não costumava fazer esse tipo de perguntas.

Quanto mais tempo eu passava com as mães dos meus amigos, mais me incomodava o quanto a minha se comportava de outra forma. Eu passei a me sentir dolorosamente consciente das festas de aniversário que ela não organizava para mim e das conversas significativas que raramente tivemos.

Provavelmente, eu não fui a única que sentia isso. Os meus irmãos também não tiveram o mesmo tempo de qualidade com ela. Depois de insistir, alguns entre nós desistimos, porque nos machucava demais continuar lutando pela sua atenção.

Comecei a lidar com a negligência emocional da minha mãe ao imaginar o meu futuro. Quando ela me machucava, sem intenção, eu imaginava o quanto eu seria diferente. Eu via a minha mãe como alguém que desistiu de si mesma. Em vez de lutar por alegria ou significado, ela vivia na escuridão.

Eu seria diferente.

Testemunhar seu completo desespero instilou em mim um profundo desejo de fazer diferente. Sua prisão me tornou mais empenhada em escolher a vida e a liberdade.

Eu passei a planejar uma vida com paixão e entusiasmo

Eu me importaria com os detalhes; meus filhos nunca duvidariam do meu amor por eles, nem da importância de todos os seus interesses; eu seria uma mãe bem-sucedida; faria um impacto positivo nesse mundo; definiria o meu próprio caminho e projetaria a minha vida da maneira que eu queria que ela fosse.

Eu não tinha ideia de como nada disto aconteceria, a minha única convicção era a de que eu queria viver uma vida emocional oposta à da minha mãe.

Quando entrei na faculdade, as minhas expectativas estavam realmente elevadas. Logo eu percebi que a depressão não se limitou a fazer a minha mãe sofrer — essa também se instilou em minha mente.

Comecei a lutar em minha própria batalha. Também passei a me isolar de qualquer pessoa que se importasse comigo.

Então, eu reconheci que a minha predisposição genética não poderia definir o meu destino e decidi procurar ajuda. Eu me rodeei de amigos com pensamentos positivos, restringindo o meu círculo apenas às pessoas que me inspiravam a ser melhor. Eu dei uma voz à minha experiência de infância e trabalhei para liberar a vergonha que eu tinha da minha educação disfuncional.

Com a ajuda de profissionais, amigos e familiares, percebi o quão crítico seria para a minha saúde mental aprender a lidar com isso. Neste momento, eu decidi que estudar e trabalhar não eram o suficiente e que viajar poderia ser a resposta para superar as minhas dores. Eu precisava me encontrar e abandonar de uma vez por todas o que estivesse me fazendo mal.

Lidar com o meu estado emocional nunca foi fácil. Mas eu aprendi muito com as minhas experiências. Especialmente, eu aprendi que eu não poderia abraçar a mediocridade como uma forma de enfrentar os meus medos.

Desistir da minha vida não era uma opção, pelo menos, não era para mim.

A depressão me ensinou que estamos nesta terra para viver plenamente e com alegria

Claro que a vida pode ser extremamente difícil e injusta para alguns, mas não importa as circunstâncias que nos são dadas, temos o poder de transformar as nossas vidas. Basta ter a visão, a dedicação e o apoio certos.

É por isso que eu nunca parei de acreditar no meu futuro. Essa crença sempre foi, e continua sendo, a minha luz guia.

Agora que estou casada a mais de três anos e me sentindo abençoada com duas filhas incríveis, eu entendo que foi necessário lidar com as minhas próprias dificuldades mentais para chegar aonde estou.

Isso também me fez perceber que a doença mental da minha mãe não era nada simples e, muito menos, tão fácil de lidar como foi para mim.

A minha mãe não tinha um sistema de apoio — meu pai era duro com ela, diminuindo a sua autoconfiança. Ela teve o meu irmão mais velho quando era muito jovem (aos 17 anos de idade), não teve o privilégio de estudar formalmente e não foi capaz de criar uma identidade para si mesma enquanto era jovem. Ela apenas sofria em silêncio, sem muitas opções.

O meu coração se parte em pedaços a cada vez que eu penso em como ela teve que lidar com tudo isso sozinha.

Hoje eu sei que ela é a melhor mãe que eu e meus irmãos poderíamos ter. Ela nos manteve seguros. Ela se preocupava com o nosso futuro e queria nos ver felizes.

Minha experiência de infância vendo a dor que ela passava não foi fácil, mas hoje eu tenho uma tremenda admiração pela dor que ela suportou e pela força que ela teve para superar tudo isso.

Que não seja pelas mesmas razões, mas eu ainda desejo que as minhas filhas se orgulhem tanto de mim quanto eu me orgulho da mãe que tenho.

Você já observou de perto casos de depressão? Como ajudou a lidar com isso? Suas experiências são bem-vindas nos comentários abaixo!

2 comentários

  1. Verdade, muitas pessoas não contam com um sistema de apoio, e também nem compreendem que precisam de ajuda. Que bom que você conseguiu se cercar de profissionais, amigos e familiares que ajudaram a lidar com sua depressão. É mesmo uma batalha, mas é possível lutar

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