Mudança Sentimentos

O que realmente sentimos no fim de ano

A época de fim de ano pode ser um verdadeiro soco no estômago. Enquanto você observa todas aquelas luzes brilhando, as garrafas de Champagne sendo abertas e os fogos de artifício fazendo o papel de estrelas em uma noite chuvosa, você permanece aí, remoendo a sua dor. Uma dor profunda, que vem da certeza de que você jamais poderá ter de volta tudo aquilo que é passado.

Você jamais terá de volta o conforto da infância na casa dos seus pais, com zero responsabilidades. Você não poderá voltar àqueles momentos na chácara dos seus avós, que já não estão mais aqui. Ou aqueles dias na pré-escola, em que tudo o que você tinha para se preocupar era sobre a merenda que serviriam no intervalo.

Você já não poderá voltar para debaixo dos seus cobertores enquanto assiste um filme da Disney, e a sua irmã mais velha prepara uma pipoca doce em uma tarde de inverno. Assim como você jamais terá nenhuma paixão na vida tão doce e inocente quanto você tinha durante aqueles anos tão frustrantes e passageiros da sua adolescência.

E, pior do que isso, você sabe que neste momento, mais um ano da sua vida está terminando. Você começou com uma lista de metas e terminou com uma lista de fracassos. Tudo o que você tem agora é um ano a menos para entrar em forma, terminar aquele livro empoeirado na sua cabeceira e largar tudo para viajar.

E por causa dessas qualidades distorcidas e agradáveis, você pode permanecer dias amarrado pela fantasia do passado, desejando apoderar-se dele mais uma vez.

Esse sentimento se trata da nostalgia

Este sentimento, essa ideia distorcida de dias e épocas melhores que desejamos constantemente revisitar, é conhecida como nostalgia. E a nostalgia nada mais é do que um anseio pelo passado idealizado. Não uma verdadeira recriação do passado, mas uma combinação de memórias integradas que filtram todas as nossas emoções negativas.

Você se lembra de sentimentos fugazes, emoções e momentos de alegria da infância. Mas, você não recorda dos segundos de tristeza e mágoa. Você não se lembra da dor e da angústia. Você lembra apenas sobre o que sua mente tendenciosa escolheu recordar.

O nosso passado é sempre distorcido, desejado e visto como dias melhores. Ele é visto como algo bonito, irrevogável e está em algum lugar que sempre será melhor do que o lugar que estamos agora. Isso nos mantém longe do presente e longe da nossa realidade.

Eu tenho um sentimento genuíno de empatia pela sua dor. Porque eu sinto o mesmo. E, se essa dor da nostalgia sobre o passado que não volta mais não fosse intensa o bastante, ainda temos mais uma dor para ser enfrentada: as incertezas sobre o nosso futuro.

E, como o nosso futuro imprevisível, o passado é uma versão idealizada de algo que queremos ser, não o que conhecemos como realidade. Isso explica por que quando as pessoas falam com afeto sobre o passado.

A nostalgia se trata de um estado emocional

Nós colocamos um estado emocional dentro de uma era, ou um quadro específico, e optamos por idealizar esse tempo específico. Nós deduzimos que, porque nos lembramos do sentimento de felicidade no parque, nossa infância era melhor do que agora.

Então, todos os nossos sentidos também se comprometem, não apenas as nossas emoções. Quando Freud reconheceu uma forte ligação entre os cheiros e as emoções, ele estava certo. Nós sabemos muito bem que o cheiro do peru assando no forno da casa da nossa avó tem uma capacidade inigualável de nos levar aos tempos que já não voltam.

E, parece que a nostalgia é um estado emocional muito presente em nossa geração. Dos 20 aos 30 anos de idade, você está tentando encontrar o seu espaço, tentando conquistar a independência, ou tentando ter tudo isso de uma só vez, sem complicar a sua vida. Então, faz sentido que aqueles que se encontram no momento mais turbulento de suas vidas anseiem pela simplicidade e segurança da infância.

Embora experimentar a nostalgia tenha sido considerado um transtorno desde o século 17, quando um médico suíço atribuiu as doenças mentais e físicas dos soldados ao desejo de voltar para casa, a nostalgia não representa um sinal de depressão. Admirar as lembranças do passado era visto como um sinal de recusa em aproveitar o presente. Foi visto como falta de compromisso com o futuro e um empenho em relação ao passado.

No entanto, uma vez que mais pesquisas foram realizadas, está provado que a nostalgia realmente funciona para contrariar a depressão. E este estado emocional vai além.

Este estado nos dá uma razão para viver

É seguro dizer que todos nós desejamos voltar ao passado. A nostalgia, como a tristeza e a felicidade, é um sentimento universal. É um estado que todas as raças, culturas e idades compartilham. Todos nós crescemos nostálgicos pelo passado, mesmo que o nosso passado seja completamente diferente do passado de qualquer outra pessoa.

É a capacidade de entender essas emoções comuns e de ter empatia que nos une como seres humanos, e nos torna melhores comunicadores. Se não fosse pela nostalgia, não nos lamentaríamos por outros que tiveram infâncias ruins e saberíamos nos conectar àqueles que são tão diferentes de nós.

Mais poderoso do que o futuro, a nostalgia que temos sobre o passado serve como uma razão para continuar. Em vez de enfrentar o desconhecido, voltamos para o passado para lembrar por que a vida vale a pena viver. Atravessamos memórias de felicidade para nos dar fé sobre o futuro.

E é por isso que a nostalgia serve como uma função existencial. Ele traz à mente experiências que nos asseguram que somos pessoas com vidas significativas. Ao pensar em sua vida e nos momentos que a compõem, você encontra mais valor e significado.

Você não está mais sobrecarregado com o peso do que não foi capaz de realizar. Lembre, que tudo o que você tem para carregar em seu futuro, seja durante o próximo Ano Novo ou quando você chegar na sua velhice, é uma razão para continuar.

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