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Por que os 20 e poucos são os anos mais infelizes de nossas vidas

De acordo com um grupo de pesquisadores australianos, a idade dos 20 e poucos anos representa o auge da felicidade para homens e mulheres. Então, millennials, eu tenho uma pergunta: “este exato momento é mesmo o mais feliz da sua vida?” Provavelmente, não seja e eu posso entender o por quê.

Antes de qualquer coisa, veja o meu caso:

Apenas no ano passado, eu mudei de país outra vez, me distanciei dos meus amigos, somei mais alguns fracassos profissionais, passei os meus dias confinada dentro de casa e senti que eu não estava causando nenhum impacto positivo no mundo, menos ainda, na minha própria vida.

Se você for qualquer tipo de pessoa como eu, a sua realidade pode estar bem distante da felicidade plena.

Então, por que as pesquisas continuam propagando mentiras sobre o quanto devíamos ser felizes? Como realmente nos sentimos sobre tudo isso?

Não sei você, mas eu sinto frustração.

Eu acabo de desperdiçar “os anos mais feliz da minha vida”.

Para mim, os 20 e poucos anos de idade foram realmente preocupantes, estressantes e ansiosos. Se algo caracterizou essa fase para mim é a montanha-russa emocional que eu experimentei.

Mesmo que este não seja o seu caso, eu sei que não sou a única que passa por este tipo de frustração.

Nós millennials somos experts em frustração, graças às nossas expectativas elevadas sobre tudo.

Chegamos a nos sentir felizes – até que um novo tipo de estresse nos leva de volta à realidade. É um efeito ioiô, determinado pelos nossos estados mentais.

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Resultado disto é que não somos bons em lidar com uma crise. Nós deixamos as pequenas coisas entrarem no caminho da nossa felicidade.

Uma amiga me disse noutro dia:

“Eu sinto que estou permanentemente à beira de uma ruptura. Toda vez que eu acho que as coisas estão indo bem, eu caio na realidade e percebo que não tenho ideia do que estou fazendo com a minha vida.”

Ela não está passando por nada desastroso – é apenas o desafio de começar um novo emprego onde será estagiária outra vez. Os seus colegas mais velhos, parecem lidar bem com isso — mas ela não.

Isso nos leva à primeira barreira para a felicidade plena enquanto millennials:

A falta de confiança sobre nós mesmos

A confiança é algo que a Dra. Meg Jay explora em seu livro “A Idade Decisiva”.

Meg explica que a década entre 20 e 30 anos de idade de hoje não é a mesma que se via no passado. “As gerações anteriores tinham apenas três etapas: infância, adolescência e idade adulta. Mas, para a nossa geração, há uma nova fase, na qual você não é adolescente, nem adulto. Você é um millennial.”

É por isso que eu prefiro acreditar que os meus 20 e poucos anos de idade não deveriam ter sido mais felizes do que eu posso ser quando chegar aos 30.

Eu sei que os meus problemas não deixarão de existir. Mas, eu prefiro acreditar que os tempos podem melhorar.

Aqui está o problema:

Aos 20 e poucos ainda estamos descobrindo quem somos, no que somos bons e como podemos “nos encaixar”. Podemos estar nos divertindo nas noites de sábado, mas isso não é o mesmo que um sentimento mais profundo de contentamento.

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Estamos em nossos primeiros empregos, enquanto sofremos com a “síndrome de impostores”, que normalmente se mostra quando você está em um evento de trabalho e não tem ideia do que diabos está fazendo lá.

Claramente, nos falta confiança.

A teoria das “10.000 horas” para dominar qualquer habilidade pode ser aterrorizante, mas explica porque todos os seus colegas mais velhos parecem ser tão confiantes. Eles não são super-humanos -– eles apenas estão fazendo o mesmo por mais tempo.

Aos 20 e poucos anos, é difícil ter o mesmo nível de confiança porque não temos experiência suficiente. Até que você veja o seu “sucesso” em ação e se recupere das inevitáveis ​​falhas do caminho, você não será confiante — e não será feliz.

A dificuldade em ouvir e aceitar críticas

Além disso, os nossos cérebros ainda estão desenvolvendo seus lóbulos frontais, encarregando-se de dominar a emoção com a razão.

Isso significa que, combinado com a falta de experiência, tomamos críticas mais pessoalmente do que deveríamos.

Por meus cálculos, ao menos que começássemos os nossos primeiros trabalhos aos 20 a maioria de nós não será verdadeiramente confiante e feliz até que chegamos aos 30.

No momento em que chegarmos lá, encontraremos a verdadeira felicidade, certo?

Errado.

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Errado simplesmente porque a felicidade não se baseia apenas no nosso nível de confiança. Isso nos leva à segunda barreira que nos impede de ser felizes hoje:

A incapacidade de criar laços com o que e com quem importa

É cada vez mais comum encontrar no Facebook os “grupos de desapego”, feitos com o objetivo de vender coisas que já não usamos mais, o que deveria ser visto com um viés positivo, mas esse é um claro reflexo do nosso hábito de descartar tudo com facilidade.

Até certo tempo atrás era comum (especialmente para pessoas humildes) usar roupas remendadas, manter objetos colados com Super Bonder e seguir usando artigos que foram levados várias vezes para manutenções (ainda que provisórias).

Mas, fazer isso hoje em dia parece uma loucura, afinal se algo está ruim ou você não usa mais é só desapegar, jogar fora ou passar adiante e, em alguns casos, comprar um novo.

Este desapego passou a se tornar uma filosofia de vida, que se estendeu para os nossos relacionamentos interpessoais.

A internet (especialmente por causa das mídias sociais) nos trouxe a possibilidade de conhecer, interagir, se tornar amigo de muito mais pessoas em um ano do que os nossos avós teriam durante a vida inteira.

E o que isso gera?

Quando nos deparamos com grupos e páginas imensas no Facebook que teoricamente reúnem apenas pessoas com gostos em comum, nos sentimos diante de um universo de possibilidades: “Só aqui nesse grupo tem mais de 10.000 meninas que gostam da mesma música/banda/filme/livro que eu.”

Dentro destes “microcosmos”, vamos literalmente selecionando e testando pessoas quando estamos em busca de um relacionamento.

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Olhamos o perfil de um, vemos o signo, a cidade, a escola que estudou, os amigos que têm, os lugares que costuma frequentar e mais uma infinidade de coisas que, por vezes, nos fazem sentir que aquela é “a pessoa certa”.

Geralmente, com a mesma rapidez com que nos interessamos pela pessoa, puxamos conversa e até mesmo nos apaixonamos, também descartamos rapidamente se percebermos que “não era bem aquilo”.

Assim, o ciclo recomeça: achamos outra pessoa com gostos parecidos, checamos o perfil, começamos a nos apaixonar, nos decepcionamos e descartamos. Afinal, tem tanta gente no mundo, para que insistir? Para que esperar? Para que nos apegar?

Mas será mesmo que a gente não se apega? Será que todas essas pessoas entram e saem das nossas vidas sem deixar nenhuma marca? E será que nós não a marcamos também?

Gostar ou se apegar (que muitas vezes são sinônimos) é algo inevitável, mas acho que só vale a pena essa filosofia de desapego quando se trata de relacionamentos abusivos, com pessoas tóxicas.

Conhecer alguém é algo que leva tempo (um tempo diferente para cada pessoa). Não é algo que acontece de uma hora para outra — salvo raras exceções.

Quando começamos a colecionar esses mini-relacionamentos, ficamos cada vez mais despreparados para algo profundo e real. Tão profundo e real que seria capaz de nos trazer o verdadeiro sentimento de felicidade.

O que torna estes os anos mais infelizes da sua vida? Como poderíamos mudar esta perspectiva? Deixe suas recomendações nos comentários abaixo!

2 comments

  1. Identifico-me com várias das coisas que li aqui. Cheguei entretanto aos 28, e sinto que o “desespero” começa a acalmar. Começo a aprender que nem todos somos especiais, e não temos que seguir todos o mesmo caminho.
    Obrigada por esta leitura!

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