Mais vida familiar

Por que ser mãe em tempo integral não é o pior trabalho do mundo

Antes de qualquer coisa, devo te dizer que eu sou mãe em tempo integral. E, há mais de 20 meses consecutivos, estou dedicando virtualmente 100 horas semanais nesta função. Enquanto eu me desdobro para sentar e escrever, estou preparando o almoço, esperando terminar mais um ciclo de roupas sujas e me remoendo por dentro porque deixei de comprar mais frutas na última vez que consegui passar pelo supermercado.

Ao escrever este artigo, eu me recordo de todas as vezes que eu ouvi dizer que ser mãe em tempo integral é uma função privilegiada. Em tese, apenas as mulheres de classe média alta, bem-sucedidas em seus trabalhos anteriores, poderiam abrir mão de suas carreiras para se dedicar aos integralmente filhos.

Claramente, não faltam exceções em outros grupos sociais, como é o meu caso.

Eu não sou uma mulher com a vida ganha. Para ser mais direta, eu ainda estou tentando concluir um mestrado na minha área de formação, enquanto lido com o desafio de educar uma criança fora do meu país de origem.

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O meu ponto em escrever sobre “ser mãe” não é criticar ninguém que esteja se dedicando a essa função, nem mesmo reclamar sobre a minha realidade.

O que eu quero deixar bem claro aqui é apenas a minha opinião sobre esse tópico tão controverso na nossa sociedade.

Aqui está a verdade:

Ser mãe em tempo integral tem as suas vantagens

Nessa função, eu posso priorizar as minhas tarefas diárias, criar uma agenda sem interrupções para reuniões improdutivas, planejar as finanças da minha família e ainda economizar o dinheiro que eu gastaria em transporte, alimentação fora de casa, vestimentas de trabalho e presentes para os colegas na empresa, se eu estivesse trabalhando fora.

Dentre essas vantagens, eu também tenho tempo para ler todos os dias, mesmo que a maioria destas sentenças não tenha mais do que três sílabas.

Se bem que eu tenho que gerenciar pessoas com temperamentos e personalidades fortes (marido e filha), mas não tenho tantos prazos quanto eu tinha no universo corporativo.

Eu também tenho uma hora para o almoço e uma bola de pilates para aliviar o estresse em nossa sala de estar.

Claro que em alguns dias a minha rotina pode ficar realmente agitada. Dentre algumas atividades comuns, eu devo levar a buscar a minha filha na creche, participar de encontros com outras mães, trocar fraldas, dar banho, cozinhar, limpar, dobrar, organizar, negociar, ler o mesmo livro de contos por quinze vezes e brincar de esconde-esconde.

Em outros dias, eu tenho as contas para pagar, as visitas ao pediatra, as reuniões na creche, etc e etc. Essas tarefas não são realmente difíceis. A recompensa financeira é que é uma merd*.

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Para quem não entendeu ainda: nada disso é realmente difícil.

Claro que dá muito trabalho

Chegar nessa posição não foi tão fácil assim. A rotina de escritório nas últimas experiências profissionais que eu tive haviam moldado a minha mentalidade e passei a acreditar que apenas altos cargos e boa remuneração me deixariam realizada.

Eu passei a acreditar que apenas trazendo resultados para uma empresa, com um desempenho excelente e empatia com os colegas, é que eu poderia crescer.

Quando eu pedi demissão para me casar e mudar de país foi como mergulhar em um oceano de incertezas.

Embora eu me tivesse me sentido privilegiada por quem eu me tornei (uma mãe em tempo integral), eu ainda sinto que o meu papel não é tão compensador quanto possa parecer.

Na verdade, nada disso importa.

Temos que aprender a lidar com a verdade: ser mãe em tempo integral, não é o trabalho mais difícil do mundo.

Isso mesmo, este não é o trabalho mais difícil

Ser pai também é difícil, mas também não é o trabalho mais difícil do mundo.

Se você quer ter uma ideia do que é ter um trabalho difícil, tente se juntar aos montadores de iPhones que trabalham mais de 12 horas por dia confinados em uma fábrica, onde também estão os seus dormitórios, com grades nas janelas para que eles não se joguem do vigésimo andar enquanto os seus companheiros de quarto tentam descansar.

Ou, tente imaginar uma professora do centro da cidade enfrentando pais de alunos briguentos, equipamentos de aula precários e cadeiras insuficientes para toda a sua classe. Ou, um médico no Talibã, tentando salvar vítimas de atentados.

Se uma equipe de TV de reality show do Discovery Channel o seguirem em seu trabalho, é provável que o seu trabalho seja mais difícil do que ser mãe. Mas, eu nunca fui abordada por ninguém querendo fazer uma reportagem sobre a minha missão diária de trocar fraldas.

Ser mãe ou pai, na verdade, não é aterrorizador. Se os seus filhos conhecem as músicas da Moana ou da Galinha Pintadinha, o seu trabalho será ainda menos difícil.

Se você consegue manter o seu filho (ou filha) em seus carrinhos de bebê durante os 30 minutos que você precisa para comprar a comida da semana, o seu trabalho não é difícil.

Ainda, se você escreveu uma atualização de status nas últimas 72 horas na sua linha do tempo no Facebook sobre o quão difícil é seu trabalho, o seu trabalho não é tão difícil.

Photo by Alexander Dummer on Unsplash

Ao contrário da maioria das profissões, uma mãe em tempo integral até pode gozar de uma boa reputação.

Basta observar o que acontece na mídia e no varejo nas semanas próximas ao Dia das Mães. Todos se tornam imediatamente conscientes do quanto valor oferecemos à sociedade.

Mesmo se você é uma mãe ruim, o efeito será o mesmo.

Se uma mãe qualquer fosse caminhar pela rua e a bolsa de fraldas cai, meia dúzia de pessoas se apressariam para oferecer ajuda. Agora, se um vendedor de livros caminhasse pela rua e caísse a caixa dele, o efeito provavelmente não seria o mesmo.

Você também não verá um manifesto de apoio aos montadores de iPhone, nem mesmo aos médicos do Talibã. O trabalho dessas pessoas não parece ter um grande impacto nas nossas vidas.

Agora, o papel das mães em tempo integral parece que sim.

Ainda assim, esse não é o trabalho mais importante. Ele pode ser mal pago, mas também não é o mais difícil.

Você concorda com este ponto de vista? A sua opinião será bem-vinda nos comentários abaixo!

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