Mais liberdade

Por que vale a pena superar o seu medo de viajar pelo mundo

Um homem dirigiu-se à bancada de um edifício em Las Vegas no fim de setembro do ano passado, disparando e atingindo fatalmente 48 pessoas que estavam em um evento musical. Durante o episódio, eu e minha família estávamos a poucos quilômetros, desfrutando de um dia no parque mágico da Disneyland.

No dia seguinte, observando as notícias e tentando processar aquele aterrorizador evento, eu cheguei a pensar que o mesmo poderia ter acontecido facilmente com as nossas próprias vidas.

Logo, recebemos uma chamada da nossa família no Peru, nos questionando se tudo estava bem. Enquanto era improvável que algo ruim tivesse acontecido conosco, não era impossível, porque nada é.

Em um momento na história em que a violência até pode ser banal, dizemos que tudo está bem, porque o que está acontecendo é o que estamos acostumados a ver e a ouvir — mas essa banalidade só acontece quando você não deseja se envolver, quando você não quer nem saber daqueles que perderam seus pais ou filhos em uma tragédia.

Eu não estou julgando, porque a dor que sentimos pelas pessoas que nem mesmo conhecemos é real. É humano nos simpatizar pelas vítimas e nos questionar se poderia ter acontecido conosco. Por que nos envolveríamos ainda mais?

Como uma viajante, eu experimentei esses sentimentos e questionamentos muitas vezes. Lembro-me de me esconder no banheiro chorando enquanto lia as notícias sobre os turistas alemães mortos em Istambul, em janeiro de 2016. Eu estava no local exato onde tudo aconteceu, a pouco mais de dois anos antes.

Por que eu estou falando de tudo isso?

Porque quanto mais ódio existir no mundo, mais necessários será viajar.

Eu reconheço a ansiedade que indivíduos como eu podem sentir sobre visitar novos lugares em um momento em que grande parte do mundo enfrenta incerteza política e agitação religiosa. Eu também reconheço a preocupação das famílias que ficam para trás e esperam ansiosamente por notícias.

No entanto, viajar agora é mais importante do que nunca. E com isso eu quero dizer que nunca estaremos preparados para o pior.

O medo do terror poderia até desencorajar as pessoas de viajarem, mas nem tudo se pode evitar. O que vai acontecer, vai acontecer. Não podemos viver nossas vidas com medo.

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Finalmente, temos que continuar a ver o melhor nas pessoas.

Eu tive esses pensamentos logo depois daquele episódio em Las Vegas. Sim, o meu coração ficou ferido. Aquele ataque estava fresco em minha mente, mas o que eu posso fazer em casos como este? Chorar e me isolar em uma bolha provavelmente não vai ajudar em nada.

Por outro lado, há tantos motivos para continuar viajando, apesar do nosso medo, e o primeiro deles é o que mais me move:

Viajar combate o fanatismo

Você já deve ter visto essa citação de Mark Twain ao navegar pela internet:

“A viagem é fatal para o preconceito, o fanatismo e a estreita mentalidade, e muitas pessoas precisam disso. As visões amplas, saudáveis ​​e caritativas dos homens não podem ser adquiridas em um pequeno canto da terra durante toda a vida.”

Eu reafirmei isso durante a minha primeira experiência internacional, quando eu realizei um intercâmbio voluntário em Trento, no Norte da Itália. Eu trabalhava em um ambiente acadêmico, o que me permitiu rapidamente aprender italiano básico. Ainda assim, eu era a única brasileira que eu conhecia por lá.

Rapidamente, eu me tornei amiga de um grupo heterogêneo de colegas. Haviam mexicanos, ucranianos, russos, canadenses e outros que iam e vinham à medida que as semanas passavam.

Eu me sentia como uma jovem que, há menos de um ano antes disto, nunca havia falado uma palavra em uma língua estrangeira. De repente, fui apresentada a histórias e perspectivas singulares, vindas de pessoas de todo o mundo.

Ainda olho para essa experiência como uma das mais formativas da minha vida. Sair da minha bolha, ou o que chamamos de “zona de conforto”, expandiu a minha visão de mundo e mudou completamente a maneira como eu pensava sobre o meu país e sobre a sua relação com o resto do planeta.

As experiências não têm preço

Se eu olhar para trás na minha vida em setenta anos — sim, eu pretendo viver tanto tempo — e dizer “eu não viajei porque estava com medo”, eu ficaria muito triste e desapontada.

Eu teria perdido muitas oportunidades surpreendentes.

Mais importante do que isso, eu ficaria extremamente desconsolada porque não há uma quantia de dinheiro que represente o ganho em experiências de vida adquiridas durante uma viagem.

Elas são simplesmente muito valiosas para evitar.

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A alegria está no desafio

Se deixarmos o medo nos impedir de viver as vidas que queremos viver, estamos fazendo um grande desserviço a nós mesmos, permitindo que aqueles que querem controlar-nos com ameaças tenham sucesso em fazer isso.

Em vez de se esconder, ter medo, apontar os dedos, ou culpar raças ou religiões inteiras, eu prefiro me desafiar e viajar. Eu faço isso enquanto continuo explorando o mundo e respeitando os novos lugares e pessoas que conheço.

As chances estão definitivamente a nosso favor

Eu trabalhei por algum tempo na área de redação e sei que a imprensa tem o dever de cobrir qualquer trajédia que afete vidas ou comunidades humanas. Dito isto, a cobertura da mídia que vemos todos os dias não faz nada para aliviar os nossos medos e ansiedades sobre o mundo em que vivemos.

Na realidade, você tem mais chances de morrer em um incidente de avião ou em nave espacial do que nas mãos de um terrorista. É por isso que eu desconsidero o que vejo na televisão (nas raras vezes que assisto) e me sinto segura quando ando pelas ruas, em qualquer lugar do mundo.

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A maioria das pessoas é boa

Quando você sente que a violência está por todo lado, lembre-se de que algumas pessoas  apenas tentam espalhar o ódio, mas você não precisa colaborar com isso. A maioria das pessoas, independentemente da religião, raça, nacionalidade, etc, não quer a violência.

As pessoas dos países que você visita levam suas vidas e querem paz, tanto quanto o resto de nós. Estamos unidos em condenar ataques como o que eu mencionei no início deste artigo.

Estamos todos juntos nisso.

O racismo e os ataques podem até nos fazer odiar o mundo, mas quando vemos todos se unirem depois que algum mal acontece, fica claro que a maioria das pessoas deseja a paz.

Tudo isso só me faz querer viajar ainda mais.

E você: como se sente sobre viajar no mundo hoje? Os lugares que você escolheu visitar são diferentes do que teriam sido há cinco anos? 

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