Mais vida familiar

Por que você vai se casar com a pessoa errada e como evitar o pior

Uma das coisas que mais temos medo pode acontecer conosco, ainda que nos esforçamos para evitar isto: casar com a pessoa errada. Em parte, isso acontece porque temos uma série desconcertante de problemas que emergem quando tentamos nos aproximar dos outros.

Talvez tenhamos uma tendência latente de ficar furiosos quando alguém discorda da nossa opinião ou alguém que pode relaxar enquanto estamos trabalhando. Somos complexos e isso é natural. O problema é que antes do casamento raramente reconhecemos nossas complexidades.

Sempre que um relacionamento ameaça revelar as nossas falhas, culpamos os nossos parceiros. Quanto aos nossos amigos, eles podem nem se importar o suficiente para fazer o trabalho de nos abrir os olhos. Um dos privilégios de fazer isto por conta própria é, portanto, a impressão de que a vida é muito fácil de se viver.

Nossos parceiros não são mais conscientes de si do que nós de nós mesmos. Naturalmente, tentamos compreendê-los. Nós visitamos as suas famílias; olhamos para as suas velhas fotos; conhecemos os seus amigos da faculdade. Tudo isso contribui para a sensação de que fizemos nossa lição de casa. Mas isso não é o bastante.

O casamento neste contexto acaba sendo como uma aposta tomada por duas pessoas que ainda não sabem quem são ou quem é o outro, comprometendo-se com um futuro incerto e evitando uma maior investigação.

Durante a maior parte da história, as pessoas se casaram por razões lógicas: porque suas famílias possuíam um negócio, ou, digamos, ambos pais eram devotos a uma mesma interpretação de suas crenças.

Tais casamentos levavam à infidelidade, ao abuso e aos gritos ouvidos através das portas.

O casamento era, em retrospectiva, esnobe e explorador. É por isso que o que o comprometimento que o substituiu — o casamento dos sentimentos — foi amplamente evitado, porque produzia a necessidade de formar este sentimento.

O que importa no casamento do sentimento é que duas pessoas são atraídas por um instinto avassalador e acreditam em seus corações que isso está certo. Na verdade, quanto mais imprudente um casamento parece ser (talvez tenham decorrido apenas três meses desde que se conheceram; um de seus pares não tem um emprego; etc), mais seguro pode parecer.

Mas, apesar de acreditar que estamos buscando a felicidade no casamento, não é assim tão simples. O que realmente procuramos é a familiaridade — o que pode muito bem complicar quaisquer planos que possamos ter para a felicidade.

Buscamos recriar, em nossos relacionamentos adultos, os sentimentos que conhecemos tão bem na infância.

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O amor que a maioria de nós experimentará no início foi muitas vezes confundido com outras dinâmicas mais destrutivas: sentimentos de querer ajudar um adulto que estava fora de controle, de ser privado do calor de um pai ou ter medo de sua raiva, de não sentir-se seguro o suficiente para comunicar os seus desejos.

Lógico, que nós devemos, como adultos, nos encontrar rejeitando certos candidatos para o casamento, não porque eles são os candidatos errados, mas porque eles são certos demais — muito equilibrados, maduros, compreensivos e confiáveis — dado que, em nossos corações, essa sensação é externa.

Nos casamos com as pessoas erradas porque não associamos ser amados com o sentimento de ser feliz.

Nós cometemos erros, também, porque estamos tão sozinhos. Ninguém pode estar em um ótimo estado de espírito para escolher um parceiro quando permanecer solteiro parece insuportável. Temos que estar totalmente em paz com a perspectiva de muitos anos de solidão para ser devidamente assertivo. Caso contrário, arriscamos que o amor não seja mais superior do que ter qualquer parceiro que nos poupou da solidão.

Finalmente, nos casamos para ter um sentimento permanente. Imaginamos que o casamento nos ajudará a manter a alegria que sentimos quando desejamos pedir a mão de alguém em casamento — nesse momento, talvez, estivéssemos em Veneza, em um barco, com a luz da lua lançando brilho no mar, conversando sobre aspectos de nossas almas.

Nós nos casamos para que essas boas sensações sejam permanentes, mas não conseguimos ver que não havia conexão sólida entre esses sentimentos e a instituição do casamento.

De fato, o casamento tende decisivamente a nos mover para outro plano, muito diferente e mais administrativo, que talvez se desenvolva em uma casa suburbana, com uma longa jornada de trabalho e crianças que limitam a paixão de qualquer casal. O único ingrediente em comum em um casamento neste contexto é o parceiro e esse pode ter sido o primeiro ingrediente errado.

A boa notícia é que não importa se casamos com a pessoa errada.

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Não devemos abandoná-lo, mas somos obrigados a abandonar a ideia romântica sobre a qual a compreensão ocidental do casamento se baseou nos últimos 250 anos. Falo da ideia de que existe um ser perfeito que pode satisfazer todas as nossas necessidades e anseios.

Nós precisamos trocar essa visão romântica por uma consciência trágica (e com pontos cômicos) de que o nosso parceiro irá nos frustrar, irritar, enojar e nos decepcionar — e nós (sem qualquer maldade) faremos o mesmo com eles.

Não pode haver fim para o nosso senso de vazio e incompletude. Mas nada disso é incomum ou um motivo de divórcio. Escolher a quem se comprometer é meramente um caso de identificar qual é o tipo de sofrimento ao qual estamos dispostos a nos sacrificar.

Esta filosofia do pessimismo oferece uma solução para muita angústia e agitação em torno do casamento. Pode parecer estranho, mas o pessimismo alivia a excessiva pressão imaginativa que a nossa cultura romântica coloca sobre o casamento.

O fracasso de ter um parceiro para nos salvar de nossa tristeza e melancolia não é nenhum sinal de que somos pessoas ruins.

A pessoa que é mais adequada para nós não é a pessoa que compartilha de todos os nossos gostos (ele ou ela não existe), mas a pessoa que pode negociar as diferenças de gosto de forma inteligente — a pessoa que é boa em desacordo.

Ao invés de alguma ideia teórica de “casamento perfeito”, eu estou falando da capacidade de tolerar diferenças em um casal com uma generosidade que é o marcador da “pessoa certa”. A compatibilidade é uma conquista do amor e não deve ser sua condição prévia.

O romantismo nos foi inútil; essa continua sendo uma filosofia válida. Mas, se nós acabamos sozinhos e convencidos de que a união, com suas imperfeições, não é “normal”, devemos aprender a acomodar-nos a “pessoa errada”, nos esforçando em adotar uma perspectiva mais indulgente, bem-humorada e gentil sobre os nossos parceiros e sobre nós mesmos.

Você concorda com a perspectiva neste artigo? Fale sobre a sua experiencia de casamento (se já for casado(a)) logo abaixo nos comentários!

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