Mais bem-estar

Será que a nossa obsessão pela saúde não está nos deixando doentes?

Outro dia eu fiz algo com o qual eu não me sinto orgulhosa — depois de pedir um prato saudável, tirei uma foto para o Instagram com a hashtag #vidasaudável. Não é a primeira vez que eu compartilhei uma foto de mim “sendo saudável”, mas decidi que aquela seria a última, porque percebi, ironicamente, quão insalubre é isso.

Não estou dizendo que promover bons hábitos de alimentação seja errado. Longe disso. O que percebo é que vangloriar-se por um prato bem feito nem sempre nos leva para mais perto da saúde que idealizamos.

Eu vou ainda mais além, mostrando o quanto, como geração, estamos mais “comprometidos” em cuidar da nossa saúde por meio de nossas escolhas alimentares. Basta ver que um inquérito Nielsen Global Health and Wellness, realizado com mais de 30 mil consumidores em 60 países, constatou que 32% dos millennials pagariam, de bom grado, a mais por “produtos saudáveis” em comparação com 21% das gerações anteriores (a tendência continua com consumidores ainda mais jovens, com 41% daqueles menos de 20 anos de idade dizendo que pagariam mais para alimentar-se bem).

Parece positivo, mas é até certo ponto.

Enquanto estamos constantemente enviando fotos para as mídias sociais — de um lanche vegano, de um alongamento ou exibindo abdominais acentuadas — estamos provando que tudo isso pode ter base em apenas uma coisa:

A nossa obsessão com a saúde e bem-estar

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Diferentes estudos deixam clara a nossa obcessão por manter uma boa forma. Uma pesquisa de fitness global de consumidores da Nielsen “Les Mills”, realizada em 2013, revelou ou que mais millennials estão fazendo atividades físicas do que qualquer outra geração.

A mesma obsessão com a saúde e bem-estar está contribuindo para a expansão de diferentes indústrias, como a de alimentos sem glúten.

Enquanto isso parece positivo, obsessão tem uma conotação longe de ser positiva. Aliás, eu estou convencida de que todo esse nosso esforço para manter a saúde apenas aumenta os nossos níveis de ansiedade.

Não estou sugerindo que haja algo de errado em ser saudável — eu mesma amo cuidar de mim mesma. Caminho todos os dias, sigo uma rotina de exercícios e me alimento bem. Como alguém que sofreu ansiedade crônica no passado, considero que ficar em forma e aderir a uma dieta saudável é a chave para manter a boa saúde mental.

Eu diria também que, para aqueles que sentem que estão estagnando em sua carreira e sentem que não conseguem prosperar em suas vidas, concentrar-se na saúde e na aptidão fïsica é uma forma de realizar o que querem. No entanto, quando você começa a sentir que está fazendo exigências que não pode controlar, isso pode ser um problema.

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Precisamos resistir ao impulso de ser o mais saudável possível

Estamos em um momento em que não se trata apenas de comer cinco porções de vegetais e frutas por dia. Também se trata de ter cacau ou sementes de chia na despensa e ir para a academia todos os dias. Quando isso é lançado em nossos rostos nas mídias sociais, podemos acabar sentindo culpa e desespero apenas por desfrutar ocasionalmente de um sorvete de chocolate.

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Uma amiga me disse recentemente: “se outras mulheres podem ficar assim, por que eu não posso? Adoro me exercitar e comer bem, mas com uma rotina tão agitada, não tenho tempo para chegar nesse nível de aptidão, o que me deixa depressiva”. Um amigo sentiu o mesmo, lamentando o fato de que a geração anterior bebia, fumava e comia tanta besteira, enquanto hoje ele se sente culpado por comer um único hambúrguer de vez em quando.

A ansiedade gerada pela nossa obsessão pela saúde faz todo o esforço ir por água abaixo.

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Por que ficamos mais ansiosos quando buscamos ser saudável?

Primeiro, veja que os super-alimentos são caros, especialmente nas grandes cidades e longe do acesso da produção local.

Não é apenas com a comida e equipamentos para preparar a comida que estamos pagando mais. Nós também estão mais propensos a gastar uma tonelada de dinheiro com inscrições para academias, e todos os acessórios esportivos que acompanham esse estilo de vida.

Nesta mesma linha, a busca por viver de forma saudável tornou-se uma forma de consumo ilustre, e quando não podemos pagar pelos últimos liquidificadores e gadgets para preparar as receitas mais populares de smoothies que vemos nas linhas do tempo das mídias sociais, começamos a sentir como se estivéssemos falhando.

Para alguns entre nós, a obsessão pela vida saudável tornou-se um problema na forma de orthorexia nervosa, definida como uma compulsão em comer de forma “limpa”. No entanto, a realidade por trás dos belos “modelos” de vida saudável que observamos nas mídias sociais nem sempre é o que parece.

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A realidade é que a saúde perfeita — como qualquer coisa perfeita — é inatingível

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Você quer contribuir nessa jornada de nos manter longe da ansiedade?

Ótimo. Então, mantenha os seus smoothies de sementes de chia fora da minha linha do tempo no Instagram.

De forma paradoxal, nosso desejo de ser saudável pode ser realmente um produto da nossa ansiedade. Às vezes, parecemos ter tão pouco controle sobre nossas vidas —  finanças, trabalho, sobre onde vivemos, ou sobre os nossos relacionamentos — que ser saudável é uma das poucas coisas que podemos determinar por nós mesmos e por isso tentamos tão duramente seguir nesta linha.

Agora, sejamos honestos, um estilo de vida fantasticamente saudável pode ser extremamente insalubre. Quem quer se preocupar pelo resto de suas vidas sobre se deve ou não comer um croissant a convite de um bom amigo?

Como uma pessoa sábia me disse uma vez “se você quer sentir-se bem, realmente, coma o que te deixa bem”. Eu acrescentaria: “coma de tudo e com moderação”.

Antes que você vá para a cozinha experimentar uma nova receita, saiba que eu estou muito interessada em ouvir o que você pensa sobre tudo isso. Comenta, vai?

2 comentários

  1. Adorei a sua ideia de post. Muito legal! O melhor caminho é buscar o equilíbrio em tudo aquilo o que fazemos, mas não é nada fácil, né? Conheça também as minhas ideias em rgproprio.wordpress.com 😉

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