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Sobre os nossos hábitos digitais — em que ponto deixamos de ser humanos?

Com o passar dos anos, mais e mais pessoas encontram na internet um meio de revelarem quem elas são, mais e mais pessoas obtém um smartphone, o que as conecta instantaneamente a um dilúvio de conteúdo, forçando-as a lutar e absorver e assimilar tudo isso de uma só vez, de uma maneira que ainda não somos preparados para fazer.

Primeiro, surgiram as redes sociais, tornando possível criar um perfil online que tenta replicar quem somos, ou quem queremos parecer que somos, o que realmente não faz muita diferença. Então surgiram os aplicativos, como a chuva, para inundar o que restava do nosso tempo livre.

Em meio a tanto conteúdo compartilhado na internet e tanto o que fazer com os nossos smartphones em mãos, se a internet te matasse, não levaria nenhum tempo para todos descobrirem.

Em meio a tanto conteúdo compartilhado na internet e tanto o que fazer com os nossos smartphones em mãos, se a internet te matasse, não levaria nenhum tempo para todos descobrirem. 

Mas as recompensas de estar presente online são muitas para estarmos conscientes deste risco: uma audiência de milhares de pessoas por dia; um negócio digital realmente lucrativo; um nicho explodindo uma conversa global; e uma maneira de medir o sucesso em dados que se torna um banho constante de dopamina para o ego de qualquer um.

Se tivéssemos que deixar o nosso perfil online “morrer”, nós facilmente seríamos capazes de nos reinventar. O problema é que dificilmente somos capazes de nos reinventar como seres humanos.

Se tentamos ler livros, depois de algumas páginas, nossos dedos se contraem para um teclado. Se tentamos meditação, a nossa mente tem problemas em não pensar em nada enquanto tentamos a prática.

Tanta coisa na internet é irresistível. Mas eu comecei a temer que esse modo de vida realmente se tornasse uma maneira de não viver.

Nos últimos meses, percebi que eu tinha me envolvido, como a maioria dos viciados, em uma forma de negação. Quero dizer que todas aquelas horas que eu passava online não estavam sendo gastas no mundo físico.

A cada minuto eu estava envolvida em uma interação virtual eu não estava envolvida em uma interação humana. Cada segundo absorvido em alguma página na internet era um segundo a menos para qualquer forma de reflexão sobre mim mesma.

Mas, se formos capazes de fazer isso outra vez, de desconectar de tempos em tempos dessa realidade virtual ainda seremos capazes de viver como um ser humano, da mesma forma que os humanos viviam desde o início dos tempos.

Mas, se formos capazes a fazer isso outra vez, de desconectar de tempos em tempos dessa realidade virtual ainda seremos capazes de viver como um ser humano, da mesma forma que os humanos viviam desde o início dos tempos.

Com certeza, a internet representa um grande salto na história da humanidade. Eu não estou contradizendo isso.

Para ter uma ideia, a cada minuto, os usuários do YouTube carregam 400 horas de vídeo e os usuários do Tinder baixam novos perfis mais de um milhão de vezes.

Cada dia, literalmente, bilhões de “curtidas” são feitas no Facebook. As lojas online agora publicam exponencialmente mais material do que nunca, produzindo artigos a um ritmo acelerado, adicionando novos detalhes às notícias a cada poucos minutos.

Blogs, feeds do Facebook, contas de Tumblr, tweets e pontos de propaganda reorientam, emprestam e adicionam mais conteúdo para o mesmo fim.

Nós absorvemos esse conteúdo (escrito ou em forma de vídeo e fotografia), não mais comprando uma revista ou papel, mas sim marcando nosso site favorito ou escolhendo ativamente para ler ou assistir em cada um deles.

Somos guiados a essas informações por inúmeras pequenas interrupções nas mídias sociais, tudo em cascata, com relevância e precisão adaptadas individualmente. Nem sequer paramos para pensar que temos controle sobre quais tentações irão nos afetar.

Mesmo que a sociedade tenha sempre conseguido se adaptar, sem danos óbvios, e com alguns progressos, talvez seja muito fácil ver esta nova era de distração em massa como algo menos atrativo do que realmente é.

As equipes de tecnologia do Vale do Silício e seus algoritmos sempre aperfeiçoados descobriram a isca que o levará a falar sem palavras. Nenhuma tecnologia da informação já teve essa profundidade de conhecimento de seus consumidores — ou maior capacidade de ajustar suas sinapses para mantê-los comprometidas.

E o romance nunca termina.

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Não foi há muito tempo que navegar na web, por mais viciante que seja, era considerado uma atividade estacionária. Na sua mesa no trabalho, ou em casa em seu laptop, você desaparecia em uma caverna de links para reaparecer mais tarde e reencontrar-se com o mundo afora.

Mas o smartphone chegou e tornou essa caverna portátil, convidando-nos a nos perder em qualquer lugar, a qualquer momento, em meio a qualquer outra coisa que deveríamos estar fazendo.

As informações logo penetraram em cada momento de vigília de nossas vidas. E isso aconteceu com uma rapidez incrível. Nós quase esquecemos que há dez anos nem mesmo possuíamos um smartphone.

O dispositivo passou de desconhecido para indispensável em menos de uma década. Os espaços onde uma vez era impossível estar conectado (avião, metrô, uma região selvagem) estão diminuindo rapidamente. Até mesmo mochilas agora estão sendo equipadas com bateria para smartphones. Talvez o único “espaço seguro” que ainda existe é o chuveiro.

Acha que eu estou exagerando?

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Um estudo pequeno, mas detalhado, de 2015 entre millennials descobriu que os participantes estavam usando seus telefones cinco horas por dia. A maioria dessas interações acontecia por menos de 30 segundos, mas elas somam.

Interessante é que os usuários não são plenamente conscientes de quão viciados são.

Nós achamos que usamos os nossos smartphones a metade do tempo que realmente usamos. Mas se estamos conscientes disso ou não, quer dizer que uma nova tecnologia tomou o controle de cerca de um terço das horas em nossos dias.

Desde a nossa evolução mais recente, os seres humanos têm sido apaixonados pelo conteúdo digital, que alguns atribuem à necessidade de estarem atentos às notícias entre amigos e familiares à medida que nossas redes sociais se expandem.

Mas, claramente, essa não é uma desculpa bem formulada.

A verdade é que ficamos ligados à informação tão ansiosamente quanto esperamos pela sobremesa no domingo. Tanto quanto desejamos repetir a porção de sorvete ou um pedaço de brownie, temos um impulso incontrolável por nos manter conectados.

À medida que essa alienação se acumula, deixaremos mais e mais de ser humanos.

Apenas olhe ao seu redor — as pessoas agacham-se sobre seus telefones enquanto caminham pelas ruas, dirigem seus carros, passeiam com os seus cachorros ou brincam com seus filhos. Vá a um consultório para fazer um checkup da sua saúde e você verá uma sala de recepção repleta de pescoços esticados e dos olhos mortos.

Agora, observe a si mesmo na fila para o almoço, ou em uma rápida pausa de trabalho, ou mesmo indo ao banheiro.

O que você vê? Você me diz.

E o que eu te digo é que nós deixamos de ser humanos no momento em que paramos de olhar ao nosso redor para, consistentemente, olhar para baixo.

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