Estilo de vida Hábitos

Somos uma geração obcecada com comida?

Nos últimos anos, um prato de macarrão instantâneo passou de ser um pacote de poucos centavos, para um prato de R$ 50 em restaurantes Gourmet. Essa, claramente, não foi uma mudança sem precedentes. A nossa geração é mais propensa a consumir alimentos especializados e investir mais dinheiro nisso do que as gerações anteriores.

Pela primeira vez na história, os jovens estão consumindo mais alimentos locais, orgânicos e livres de OGM (organismos geneticamente modificadas), e estamos gastando mais com comida do que com roupas.

Por que? Somos uma geração de transtornados, obcecados com comida?

Uma resposta é a indústria de alimentos está pecando em nos satisfazer com suas opções. Não se trata apenas da nossa maior consciência sobre a extensa lista de aditivos químicos, excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas que vêm com as embalagens de alimentos industrializados. Também estamos mais conscientes sobre a falta de conexão entre a comida industrializada, a Terra e nossos corpos, o que nos leva a uma busca por maior conexão.

Uma resposta para isto é que estamos limitando a quantidade de comida que vai para o nosso prato, enquanto buscamos por alimentos orgânicos, sem pesticidas, preferencialmente locais e não processados. Somado a isso, surgiram uma infinidade de novas dietas, seja a paleo, ou as tendências de consumir mais alimentos crus.

StockSnap_3LKSND9M5T.jpg

O que pode ser mais difícil entender é: por que agora? Por que essas tendências são tão relevantes para a nossa geração?

Parece haver outro motivador, além das preocupações ambientais ou de saúde.

[RELACIONADO] O que é preciso para se alimentar com consciência

Hoje, ser paleo é hip. Não consumir glúten é fácil. Evitar a soja? Não é um problema. Então, enquanto eu gostaria de pensar que isso se trata apenas de uma decisão mundana sobre querer alimentos inteiros — eu realmente penso que tudo isso também está relacionado a emoções amarradas em coisas não relacionadas com o que nós comemos.

O nosso interesse em alimentos muito específicos e a satisfação que vem de controlar a nossa ingestão de alimentos, me faz perguntar: essa restrição é apenas mais um transtorno alimentar com outro nome?

Vamos olhar mais de perto para o que acompanha estes novos hábitos de alimentação.

Diferente do veganismo, que exclue certos grupos de alimentos, um crescente número de indivíduos está preocupado com o apoio à agricultura local e em reduzir sua pegada de carbono através da compra de bens produzidos dentro de uma certa quilometragem.

Até aqui, ótimo!

Os pesquisadores esperavam determinar as motivações por trás disto. O que eles encontraram, depois de entrevistar uma dúzia de assuntos, foi o tema de “empoderamento”: Para a maioria dos adeptos a esse estilo de alimentação, consumir local promove uma sensação de controle.

Este exemplo forneceu evidências da capacidade de lidar com as nossas ansiedades através do controle de nossas escolhas, mesmo que isso apenas significasse comer alimentos de um determinado lugar.

Agora, vejamos os casos de orthorexia — a doença originada pela restrição de certos alimentos. Quem sofre de orthorexia costuma eliminar primeiro o glúten; então o milho; depois a soja; em seguida, tomates; finalmente, leite; e assim consecutivamente. Depois de um tempo, não resta mais nada para comer.

[RELACIONADO] O que comer para viver até os 100 anos

Tudo se trata da busca pelo controle. No entanto, os alimentos de trigo branco ou outros alimentos processados pela indústria talvez não sejam os maiores culpados, mas os níveis crescentes de ansiedade e de outros transtornos emocionais da nossa geração.

StockSnap_B4SBE3CLS0.jpg

Enfrentamos inúmeros fatores que provocam a ansiedade: os constantes sons de mensagens e chamadas vindas de nossos smartphones, exigindo a nossa atenção imediata; a falta de conexão humana cara a cara; as altas taxas de desemprego e baixa remuneração; a dificuldade no gerenciamento das nossas identidades online e offline; a confusão geral sobre o funcionamento de nossos ambientes cada vez mais complicados.

Talvez, o nosso sistema alimentar esquisito e a praga de muitas escolhas sobre o que vamos consumir também estão gerando escolhas alimentares fora do comum.

Não há nada problemático em desejar simplicidade e controle. É o que todos querem — e o que, mais do que nunca, está faltando. Vivemos em um mundo cheio de tecnologias intrincadas, sistemas econômicos instáveis ​​e uma infinidade de escolhas.

Temos que escolher sobre qual loja online visitar; sobre qual série de TV assistir; sobre qual website apresentará o vôo mais barato; além de decisões mais familiares para as gerações anteriores: em que conta investir; que roupa vestir para o trabalho hoje; qual rota vai me levar mais rápido ao mesmo destino; etc.

No entanto, existem ainda mais decisões que podem estar nos deixando desequilibrados.

O simples fato de entrar no corredor de cereais no supermercado é suficiente para desencadear um ataque de pânico. Essa reação é evidente para uma geração em que um quinto de nós foi diagnosticado com depressão.

Os relatórios mostram que millennials relatam mais sentimentos de desamparo, desespero, passividade, tédio, medo, isolamento e desumanização, resultando em perda de autonomia e conexão comunitária do que qualquer geração passada.

StockSnap_TADXW1KLGW.jpg

[RELACIONADO] Por que eu não me preocupo com a saúde

Estamos preparados para realizar comportamentos que nos darão autonomia. Muitas das novas “dietas” que vemos por aí refletem sintomas alimentares desordenados. A maior preocupação é que esses hábitos se tornaram admirados, quando publicamos um novo prato nas mídias sociais e recebemos centenas de “likes” como reconhecimento.

Assim como os nossos almoços e viagens exibidas no Instagram, nossas dietas restritivas tornaram-se um novo identificador da nossa geração. Os indivíduos chegam a se apresentar com hábitos alimentares em seus perfis online: “eu sou um vegano de São Paulo” ou um “ambientalista paleo do Rio”.

Hoje, talvez por causa de sua omnipresença e do brilho do ativismo alimentar, a vergonha de restringir a alimentação foi significativamente reduzida. Você ainda não quer ser a pessoa que diz: “eu não como bolo de aniversário”, mas é perfeitamente aceitável dizer: “eu não como glúten nem qualquer produto animal”.

Tudo se justifica pela busca da simplicidade, conexão e controle — coisas cada vez mais difíceis de serem encontradas, especialmente em nossos ambientes urbanos.

Para lidar com a falta desses elementos em nossas rotinas, elaboramos esse sistema para nós: procuramos refeições autênticas, ingredientes orgânicos e chamamos nossos amigos para compartilhar uma refeição em casa — mas que não seja um macarrão instantâneo.

Parece que a alimentação se tornou o antídoto para um estilo de vida descontrolado.

2 comments

Deixe um comentário